Início AUDIÇÃO Joanna Newsom e a harpa tornaram-se um único ser

Joanna Newsom e a harpa tornaram-se um único ser

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Quando criança eu era um garoto tímido que respirava Rock and roll. Minhas bandas favoritas, de um modo aceitável, beiravam a selvageria. Ao crescer, fui seguindo esse fluxo de letras abusadas e atitudes instigadas. Não abria espaço para mais nada. Até que, numa noite improvável, rendi-me a doçura de Joanna Newsom.

Joanna Newsom é uma harpista e cantora norte-americana
Joanna é uma harpista, pianista, cantora e compositora norte-americana. Foto: Reprodução

Joanna Caroline Newsom nasceu em Nevada City, Califórnia, no ano de 1982. Filha dos médicos William Newsom e Christine (Née Mueller), que tiveram mais dois filhos, Pete e Emily Newsom. Seu pai tocava violão e sua mãe era uma pianista de formação clássica que também tocava outros instrumentos como o dulcimer martelado, a harpa e atabaques. Ainda muito nova, Newsom demonstrou interesse pela harpa. Foi quando seus pais decidiram procurar um professor para ensiná-la, porém, os instrutores locais não quiseram aceitá-la por conta de sua pouca idade. Um dos instrutores acabou sugerindo que aulas de piano seriam mais apropriadas, e aos quatro anos ela começou a tocar piano. Com o passar dos anos, finalmente Joanna passou para a harpa, que ela amou desde a primeira lição. Durante sua adolescência, ela e o instrumento tornaram-se inseparáveis. Era como se sua interação com a harpa fosse a mesma de um membro artificial, ou uma cadeira de rodas. Joanna e a harpa tornaram-se um único ser!

Após o colegial, Newsom estudou composição e teoria musical no Mills College, em Oakland. Mas ela acabou abandonando a fim de se dedicar somente a sua música. Com isso, Joanna tornou-se uma exímia harpista, e também continuou aprimorando seus dons como pianista, cantora e compositora.

Em 2002 e 2003, Newsom gravou num Fisher-Prince dois EPs, Walnut Whales e Yarn and Glue. Essas gravações caseiras foram destinadas a servir como documentos de seus primeiros trabalhos. Um amigo de Newsom passou o material para Will Oldham num show em Nevada City. Oldham ficou impressionado com o material de Newsom, e convidou-a para sair em turnê. Ele também deu uma cópia do material para o proprietário da gravadora Drag City. Newsom assinou contrato com a Drag e lançou seu álbum de estreia, The Milk-Eyed Mender, em 2004. Pouco tempo depois, Newsom saiu em excursão com as bandas Devendra Banhart e Vetiver, e fez uma rápida aparição pelo Reino Unido.

Em 2006, Newsom lança seu segundo álbum, Ys, que conta com orquestrações e arranjos de Van Dyke Parks, engenharia de Steve Albini e mixagem pela Drag City. A faixa “Emily” é esplendida, e foi dedicada a sua irmã, que acabou fazendo uma participação como backing vocal. O destaque também fica por conta da música “Sawdust & Diamonds”, onde se pode notar toda sua técnica com a harpa.

Joanna Newsom posa para a fotógrafa Annabel Mehran
Joanna posa para as lentes de Annabel Mehran. Foto: Reprodução
Joanna Newsom apresentando-se em um concerto
Newsom apresentando-se em um concerto. Foto: Reprodução
Joanna Newsom em ensaio fotográfico
Joanna Newsom em ensaio fotográfico. Foto: Reprodução

O terceiro álbum veio em 2010, intitulado Have One On Me. Ele é composto por um conjunto de três discos com seis faixas cada, somando um total de cerca de três horas de novas gravações.

Eu não tenho uma ligação intimamente especial com nenhum dos três álbuns. Porém, o que mais me agrada é o The Milk-Eyed Mender. Neste álbum há canções que me vem como um verdadeiro turbilhão, e que acabam desencadeando emoções que até então jaziam dentro de mim. A faixa “Sadie” é gigantesca, culminante e visceral, e destaca aquilo que mais me toca nas letras da Newsom, sua poesia. Essa canção leva-nos a uma prazerosa viagem rumo à reflexão. Há também “This Side of The Blue” e “En Gallop”. Nessas duas músicas, Joanna leva sua voz a mais sublime suavidade, e tudo com muita técnica. Chega a ser algo místico! Mas a primeira faixa, “Bridges and Balloons”, é de longe minha favorita. Não só pela letra, mas pelo tom da voz que à Newsom imprime. Para mim é tocante e marcante. Sinto uma felicidade inexplicável ao ouvir está música.

Joanna Newsom canta e encanta
Joanna canta, toca e encanta. Foto: Reprodução

Os primeiros trabalhos de Newsom foram influenciados pela polirritmia. Sua professora de harpa, Diana Stork, ensinou-lhe o padrão básico de quatro batidas contra três, que cria um bloqueio deslocando o padrão, e isso pode ser ouvido na metade da música Sawdust & Diamonds, do álbum Ys.

Não há dúvidas que um dos diferencias da cantora é sua voz peculiar. Muitos críticos comparam a voz incomum de Newsom com a das cantoras tradicionais de música folclórica. Há também os que consideram sua voz um pouco infantil. Ela não gosta dessa comparação, e já expressou seu desdém contra tais comparações em diversas entrevistas.

Em 2009, Newsom desenvolveu nódulos nas cordas vocais e ficou sem conseguir falar por cerca de dois meses. Os críticos notaram uma mudança em sua voz, em seu mais recente álbum, Have One On Me. Terá a recuperação dos nódulos e outras modificações vocais mudado, de fato, a voz de Joanna Newsom?

Outro aspecto a se destacar é a lírica poesia que Newsom impõe em suas canções. Ela já deu declarações onde afirmou que suas maiores inspiração são sua terra natal e a família. Além de sua exuberante beleza, de ser uma cantora, compositora e instrumentalista formidável, vejo-a como uma das maiores poetas de língua inglesa da atualidade. Acho suas letras poesia da mais sofisticada. E foi pela sua poesia que me apaixonei.

Abaixo, trecho traduzido onde se pode notar a crueza da poesia de Joanna:

“Bem, você ficaria chocado com o estado das coisas
O lugar tinha acabado de ser esvaziado
Era mais quente que o inferno, então eu me deito perto no riacho
Me deixando tão nua como uma truta

O olho errante que meu olhar cruzou
É tão quente quanto um sol errante
Mas não vou querer mais nada, no jardim
Para começar de novo
Conforme todo coração endurece, menos um.”
– trecho da música “81”, do álbum Have One On Me.

Venho buscando uma forma de apreciar seu mais novo disco, e acho que é apenas uma questão de tempo para Joanna me abduzir novamente e levar-me numa viagem mágica e inesquecível a bordo de Have One On Me.

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Elvis SouzaElvis Souza é recifense, e futuro formando em Letras. Leitor bastante ávido desde muito cedo, amante de livros, música, filmes e pizza. Gosta de andar a pé, e é rato de museus e eventos literários. Vê a escrita como uma grande válvula de escape. Sua inspiração pra escrever pode vir de um simples suco de laranja e, ao mesmo tempo, de um atentado terrorista do outro lado do mundo. @elvis_marc