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Luiz Gonzaga – O Matuto que virou Rei

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Bico de Aço, Velho Lua, Gonzagão, Rei do Baião, ou apenas Seu Luiz de Januário. Os apelidos eram muitos, mas a persona era inconfundível. O grande Mestre do Forró, criador do Baião e responsável por levar a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra para todo Brasil, vai deixar uma eterna saudade!

Luiz Gonzaga - O Rei do Baião.
Luiz Gonzaga – O Rei do Baião. Foto: Divulgação

Luiz Gonzaga do Nascimento, nasceu em 1912, na cidade de Exu – Pernambuco. Cantor, compositor e sanfoneiro da melhor qualidade, Luiz ficou conhecido como o Rei do Baião. Segundo dos nove filhos do casal Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus (ou apenas Santana), Luiz veio ao mundo dividido entre a enxada e a sanfona. Seu pai trabalhava na roça, e nas horas vagas animava bailes tocando acordeão (também consertava o instrumento). Foi observando seu pai que lhe despertou a curiosidade por tal instrumento e com ele aprendeu a tocá-lo. Daí então, Seu Luiz não parou mais…

Quando adolescente, Luiz apaixonou-se por Nazarena, filha de um coronel. Quando o pai de Nazarena descobriu o namoro não pensou duas vezes, destratou e humilhou Gonzaga dizendo que ele era um pé-rapado, sem futuro e que não o queria como genro, até ameaçou-o de morte. Revoltado, Luiz fugiu da sua pequena Exu e foi para cidade do Crato, no Ceará. Ingressou no Exército e viajou por vários estados brasileiros, como soldado. Durante nove anos ficou sem dar notícias à família. Numa dessas viagens, ele vai parar em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde conheceu Domingos Ambrósio, também soldado e conhecido na região pela sua habilidade como acordeonista. Tornaram grandes amigos, e Ambrósio lhe ensinara os ritmos mais populares do Sul: valsas, fados, tangos e sambas. A partir daí retomou seu encanto pela música e a inseparável sanfona.

Luiz Gonzaga - O Matuto que virou Rei.
Luiz Gonzaga – O Matuto que virou Rei. Foto: Divulgação

Em 1939, deu baixa do Exército e seguiu para o Rio de Janeiro, queria dedicar-se à música. Lá, ele começou a se apresentar nas áreas de prostituição da cidade e em programas de calouros, sempre tocando músicas estrangeiras e ainda trajando paletó e gravata. Em uma dessas apresentações, um grupo de estudantes cearenses perguntou por que ele não tocava músicas de sua terra, as que Januário lhe ensinara? Luiz seguiu o conselho e passou a tocar e compor músicas do Sertão Nordestino. Até que, em 1941, no programa de calouros de Ary Barroso, ele foi aplaudido executando a música instrumental “Vira e Mexe”, de sua autoria (primeira canção que gravou em disco de 78 Rotações – composto por apenas duas músicas, Lado A e Lado B). O sucesso lhe valeu um contrato com a antiga gravadora RCA Victor (comprada pela BMG, em 1987, que posteriormente foi vendida à Sony Music).

Veio depois a sua primeira contratação, pela Rádio Nacional. Foi lá que tomou contato com o acordeonista gaúcho Pedro Raimundo, que usava os trajes típicos da sua região. A partir daí Luiz Gonzaga passou a apresentar-se trajado com roupas típicas do Sertão Nordestino: Chapéu (inspirado no famoso cangaceiro Virgulino Ferreira, O Lampião, de quem era admirador), Gibão e outras peças características da indumentária do vaqueiro nordestino.

Luiz Gonzaga, o Gonzagão, e suas vestes de vaqueiro.
Gonzagão montado a cavalo, trajando a vestimenta de vaqueiro. Foto: Divulgação

Nessa época, ele conheceu a cantora de coro e sambista Odaléia Guedes dos Santos, com quem mantinha um caso. Odaléia tinha sido expulsa de casa por ter engravidado do namorado, que não assumiu a criança. Luiz, sabendo da história, resolveu assumir a paternidade da criança, adotou e deu-lhe seu nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior.

O relacionamento não durou muito, as brigas entre os dois eram constantes e se agravaram quando o menino nasceu. Eles resolveram se separar com menos de 2 anos de convivência. Léia ficou criando o filho, e Luiz, às vezes, ia visitá-los.

Em 1946, quando voltou a sua cidade natal, teve um emocionante reencontro com seus pais, Januário e Santana, que há anos não sabiam nada sobre o filho. Esse fato é narrado em sua composição Respeita Januário”, em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira, um de seus grandes parceiros. Com ele também compôs “Baião”, “Assum Preto”, “No Meu Pé de Serra” e a emblemática “Asa Branca”, de 1947. Abaixo, um vídeo histórico, mostra Gonzagão cantando e tocando acompanhado por uma orquestra. Confira!

Em 1948, Luiz casou-se com a professora pernambucana Helena Cavalcanti. O casal viveu junto até o fim da vida de Luiz. Eles não tiveram filhos biológicos, por Helena não poder engravidar, mas adotaram uma menina, a quem batizaram de Rosa. Nesse mesmo ano Léia morreu de tuberculose, para desespero de Luiz. O filho deles, apelidado de Gonzaguinha, ficou órfão com 2 anos e meio. Ele queria levar o menino para morar com ele e Helena, mas sua mulher não aceitou, então o filho foi criado pelos padrinhos no Morro de São Carlos. O pai sempre visitava a criança e arcava com todas as despesas. Helena não gostava do menino e vivia implicando com ele, espalhava para todos que Luiz era estéril e não era o pai biológico de Luizinho, mas Gonzaga sempre desmentia. Ele amava o menino de fato, independente de ser filho de sangue ou não.

Luiz teve muitos problemas com o filho, os dois brigavam muito, mas eles se amavam. O menino era envolvido com amizades ruins no morro, além de viver com malandros tocando viola pelos becos da favela. Na adolescência, o jovem se tornou rebelde e não aceitava ir morar com o pai. Ao crescer, tudo foi melhorando, Gonzaguinha concluiu a universidade, e se tornou músico como o pai. Os dois viajaram o Brasil juntos, em 1980, quando o filho compôs algumas músicas para o pai, tornaram-se grandes amigos. Em 1981, gravaram um LP duplo, intitulado A Vida do Viajante – Gonzagão e Gonzaguinha, contendo várias canções do filho e sucessos do pai. Principalmente a linda canção: “A Vida do Viajante”, composição de 1953, parceria de Gonzaga e Hervé Cordovil.

Gonzaguinha e Gonzagão - Canecão 1987.
Show de Gonzaguinha no Canecão em 1987, com participação de Gonzagão.

Gonzaga fez história na música popular brasileira com a criação do gênero baião, na década de 40. Seu período mais fértil foi entre 1940 e 1960, onde compôs grandes sucessos que são cantados até hoje. Dentre vários parceiros de composição, Zé Dantas é outro que teve enorme importância para obra de Luiz Gonzaga. Juntos fizeram as canções: A Dança da Moda (1950), Forró de Mané Vito (1950), Cintura Fina (1950), Vem Morena (1950), Sabiá (1951), São João na Roça (1952), O Xote das Meninas (1953), ABC do Sertão (1953), Noites Brasileiras (1954), Riacho do Navio (1955), Siri Jogando Bola (1956), entre outros.

As músicas ressaltam a pobreza, as tristezas e as injustiças do sertão nordestino, bem como a enorme alegria desse povo. Numa época em que a maioria das pessoas desconhecia o baião, o xote e o xaxado – Seu Luiz foi a voz que não se calou. Nas palavras de Gilberto Gil, grande admirador de Gonzaga, seu estilo representou a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil.

Acompanhe alguns sucessos dessa dupla na voz de outros artistas:

Esse último foi uma apresentação da cantora Marina Elali, neta de Zé Dantas, no programa especial São João do Nordeste 2011, transmitido pela Rede Globo. Veja também um pout-porri das canções “São João na Roça, Cintura Fina e Riacho do Navio” e a lindíssima canção “A Volta da Asa Branca”, que simboliza o retorno de Gonzagão para sua terra, também interpretadas pela neta de Zé Dantas.

Lulu Santos e Luiz Gonzaga.
Lulu Santos ajoelhado, beijando a mão de Luiz Gonzaga durante show no Circo Tihany. © 1986, Abril Imagem

A imagem diz tudo! Naquela época o garotão Lulu Santos já despontava com várias músicas de sucesso no Brasil inteiro. Em 1984, havia gravado seu 3º álbum, intitulado Tudo Azul, mesmo nome da música que fez em parceria com Nelson Motta. A canção faz referência ao Rei do Baião, uma demonstração da enorme importância e admiração da nova geração da música brasileira em relação a Gonzaga e sua obra.

Em 1989, Gonzagão morreu vítima de parada cardiorrespiratória na capital pernambucana. Em 2012, Luiz completaria 100 anos se estivesse vivo, estão sendo feitas várias homenagens a ele. Foi tema do carnaval da escola de samba carioca Unidos da Tijuca, com o enredo “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão”, com o qual ganharam. Há dois anos, foi lançado o excelente livro O Rei e o Baião, organizado por Bené Fontelles. Este ano, também será lançado o filme Gonzaga – De Pai para Filho, é aguardar para ver. Eu, como sou grande admirador de Luiz, deixo aqui minha humilde homenagem ao matuto que virou Rei.

Referências: Gonzagão Online, Forró em Vinil, Wikipédia e o Site Rei do Baião.