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ENTREVISTA com Anna Anjos

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Ilustradora, artista plástica e modeladora 3D, Anna Anjos é a nossa primeira entrevistada do ano. Uma profissional das artes visuais que encanta com seus trabalhos cheios de energia e cores vibrantes.

Anna Anjos no White Space Project.
Anna Anjos participou do White Space Project (2012). Foto: Atelliê Fotografia/Divulgação

Essa paulista de 27 anos, apaixonada por mitologia, música e pela cultura brasileira, vem ganhando cada vez mais espaço em sua área de atuação, e consolidando sua produção artística. Encantamento, amor pelo que faz, mitologia, folclore, e elementos lúdicos, são as bases de seu trabalho. Anna Anjos é graduada em Design Gráfico e atua como ilustradora freelancer desde 2008 para os mercados publicitário, editorial, e de moda (vestuário). Agora, confira a entrevista que fizemos com ela!

Ativar Sentidos – Você é ilustradora e artista plástica. Quais foram suas influências?
Anna Anjos
– Arte Naïf (Vermelho, Joe Sorren e a ucraniana Maria Primachenko); o universo steampunk também me agrada muito, essa coisa mais “tecnológica”, industrial; e a cultura brasileira, claro. Principalmente da região nordeste do nosso país. Todo esse universo de cores e formas, todos os ritmos e a mitologia por trás de cada história de nosso folclore… Tudo isso me fascina! Nossa riqueza visual e cultural é imensa, somos um Brasil de Brasis. E é essa mistura, essa diversidade, que procuro desenvolver em minhas ilustrações, e que serve de alimento para criação do meu universo gráfico.

Aliás, eu acho que a influência (tanto visual, quanto sonora e textual) alimenta a gente (não de beleza, ou raiva, angústia, medo, porque estas todas são designações relativas ao tempo em que se vive). As influências, ao meu ver, alimentam a gente de possibilidades: o inesperado torna-se desejado, o intangível torna-se palpável. Cores, formas, palavras e sons são ingredientes que definitivamente engordam nosso cerebelo (risos).

AS – Em que momento você decidiu que era exatamente isso que desejava fazer na vida?
Anna
– Sempre desenhei, desde criança. Mas foi por volta dos 16, 17 anos, que tive certeza de que era isso mesmo que eu queria ser, profissionalmente falando. Tive a sorte de ter pais que sempre fomentaram minha aptidão pelo desenho.

Era até engraçado porque quando eu era pequena e me perguntavam o que eu queria ganhar de presente, sempre respondia a mesma coisa: canetinha (hidrocor). Minha mãe insistia em me presentear com bonecas, além do material de desenho, mas elas ficavam todas amontoadas em um canto, eu só queria saber de desenhar mesmo. Aí em 2005 eu me formei em design gráfico e, três anos depois, eu criei coragem e fui trabalhar como ilustradora autônoma.

Anna Anjos no White Space Project
Anna Anjos em ação no White Space Project (2012). Foto: Atelliê Fotografia/Divulgação

AS – Um dos grandes desafios de um artista é encontrar o seu próprio estilo. Como você desenvolveu sua técnica?
Anna
– Muitos estudantes e recém-formados em design e publicidade me perguntam isso e eu sempre digo que o mais importante é ter referência. Tudo o que você faz, todas as coisas com as quais você toma contato, seus gostos pessoais, tudo isso é referência. Um “estilo”, ao meu ver, nada mais é do que uma coleção de ideias, imagens e sons que você absorveu durante sua experiência de vida pessoal, que se organizou de determinado modo em sua mente e pela qual você busca se expressar.

AS – Qual conselho você daria para quem está nessa busca?
Anna
– O ilustrador que deseja trabalhar como freelancer precisa saber lidar com dois fatores fundamentais que a vida autônoma exige: ser prudente em relação a vida financeira (porque a renda mensal é flutuante e, por conta disso, é aconselhável investir uma parte de sua economia) e estar disposto a conciliar os trabalhos com os imprevistos da vida doméstica (se pretende trabalhar em casa, e não em um estúdio ou espaço fora do ambiente onde mora). A pró-atividade na vida autônoma é essencial: você precisará prospectar clientes, entrar em contato com profissionais da área, estudar muito também (pra aprimorar-se como profissional da área na qual atua).

Outra questão que deve ser levada em consideração é a forma como você lida com a solidão. Isso porque na maior parte do tempo você provavelmente estará sozinho e talvez não tenha um convívio diário interpessoal no ambiente de trabalho. A verdade é que no início pode ser bem difícil mesmo, mas com o tempo você se acostuma. No meu caso, por exemplo, é bom. Eu gosto de ficar sozinha, pois assim sinto que me concentro melhor e consigo focar mais em minhas atividades profissionais diárias.

Roughs by Anna Anjos
Roughs e estudos de seus personagens.

AS – Quais as maiores dificuldades encontradas por quem escolhe trabalhar com arte?
Anna
– São várias. Posso dizer que a principal delas é o preconceito com a profissão (o familiar e também no próprio meio profissional, gerado quase sempre por pouco conhecimento ou total desconhecimento da área). Sinto que falta uma postura mais empreendedora, mais dinâmica dos profissionais de criação, como ilustradores, por exemplo, porque nós somos nosso cartão de visita. A forma como a gente se relaciona e se apresenta (até mesmo a forma de abordagem e temática dos posts de uma rede social, como o Facebook) faz parte de seu perfil profissional.

AS – Depois de tantos trabalhos importantes já realizados, qual sonho/parceria de trabalho você ainda gostaria de realizar?
Anna
– Todos os que ainda não fiz! (risos). Animar meus personagens é algo que ainda quero fazer, espero que em breve. Mas a verdade é que não tenho esse lance de realizar “esse” ou “aquele” trabalho. Meu desejo é continuar desenhando e criando, sendo valorizada pelo que faço, continuar estudando e me aperfeiçoando, isso é o que me motiva realmente.

AS – Se essa não fosse sua profissão, qual seria?
Anna
– Além de desenhar, gosto demais de pesquisar e estudar história e folclore. Eu devo ser uma antropóloga em uma vida paralela (risos). De uma certa forma tenho a oportunidade de exercitar essa veia da pesquisa através do Obvious, site de arte e cultura para o qual escrevo atualmente.

Dom Bigode by Anna Anjos
Ilustração digital do personagem “Dom Bigode”.

AS – Você acredita que ser artista é um dom ou uma habilidade que se adquire com a prática?
Anna
– Creio que os dois se complementam. Explico: quando pensamos em artistas logo nos vêm à cabeça os pintores, músicos, profissionais do mainstream que foram transformados pela mídia em ideais, figuras quase inatingíveis. Mas a palavra “arte” vem do latim (ars). Significa “habilidade”, “técnica”. Então, se a gente analisar por esse ponto de vista, percebemos que não é possível pensar a arte sem esses dois fatores: sensibilidade e certo domínio sobre o que se faz, independentemente da profissão.

Profissionais de diversas áreas (não necessariamente ilustradores, atores, músicos, pintores, etc) também têm essa capacidade “artística”, cada qual dentro de sua área de atuação. Veja os feirantes, por exemplo. Alguns deles têm um talento natural para o que fazem, inerente à sua personalidade e se tornam exímios vendedores! Naquele universo repleto de cheiros e cores eles são verdadeiros artistas, porque tiveram que desenvolver uma técnica específica de comunicação que fosse eficiente para vender seus produtos.

Ser artista não é ser “superior” ou “inferior” a nenhuma outra profissão. Vejo ser “artista” como um meio para poder expressar-se através do universo visual/plástico, sonoro e literário.

Anna Anjos - Perfil
Anna brincando com as cores. Foto: Divulgação
A Flautista by Anna Anjos
Ilustração da personagem “A Flautista”.

AS – O universo das artes visuais é um campo de atuação muito vasto. Em sua opinião, é melhor atuar nas mais diversas áreas ou especializar-se em uma delas?
Anna
– Há quem acredite que, por questões mercadológicas, seja melhor ser um profissional múltiplo, que realize ilustrações, por exemplo, em diversos estilos e técnicas. Esse é realmente um leque maior. Mas para mim funciona da forma inversa: eu prefiro desenvolver meu trabalho em um estilo próprio, mas sempre buscando novas possibilidades que me levem a um aperfeiçoamento técnico. Com isso, a ilustração que fiz em 2008 não é mais a mesma de hoje. Estudei modelagem 3D em 2012 que ampliou minha visão sobre o comportamento das luzes nos volumes e, com isso, sinto que ganhei mais apuro técnico. Vejo uma ilustração minha de 2008 e uma atual; elas realmente estão muito diferentes, apesar do estilo ser o mesmo.

AS – O que você diria para aqueles que estão começando nessa carreira e sonham em conquistar um lugar ao sol?
Anna
– Ser pró-ativo é essencial: entre em contato com outros profissionais da área, informe-se sobre cursos, oficinas e palestras. Prospecte clientes e mostre a eles seus melhores trabalhos atuais. Não tome os julgamentos e críticas como negativas, procure analisar cada opinião e compará-las, mas tenha sempre seu objetivo em mente, acima de tudo. Tudo isso vai enriquecer seu horizonte pessoal (e profissional, claro). Hoje em dia muitos de nós utilizamos a internet. Valer-se do uso das redes sociais como ferramenta de divulgação de portfolio é algo muito positivo também.

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* Agradecimento especial a Anna Anjos que gentilmente concedeu-nos essa entrevista.
Realização: Edvando Junior e Gabriela Silva.