Início 6º SENTIDO Acorda, Cinderela!

Acorda, Cinderela!

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Eu poderia iniciar meu conto com o clássico “era uma vez”, como tantos outros o fizeram antes de mim, mas tem certos tipos de personagens que me causam náuseas. Ela acreditava em príncipes e, porque acreditava, ele surgiu. Ele gosta de mulher magra e bem vestida. E por isso, ela se maquiava demais. A vida que ele escolheu não aceita algo que não seja no mínimo paletó, gravata e um rosto sem barba e bigode. Ela é bondosa, porém ambiciosa. A conta bancária de ambos difere pela quantidade de dígitos. Ela tem caráter e boas condutas. Ele só tem dinheiro.

As máscaras escondem a real personalidade das pessoas.
As máscaras escondem a real personalidade.

Não me lembro ao certo se começou aos poucos ou se foi de repente. Só lembro que ela se encantou. E foi piorando. Ele tentava sem muito sucesso disfarçar a sua insegurança atrás da sua superficialidade. Apesar de forte, bonito e encantador, escondia sim uma face arrogante e preconceituosa, que por vezes se mostrava nas brechas da frouxidão de uma máscara que te traia. E que, com toda a certeza ele também havia comprado. A vida seguia no impasse escorregadio e sombrio, mas dançava ele e ela, no salão enorme de chão reluzente, e quem mais entrasse na valsa, virando, dançando, a falsa dança dos bobos. Ela vivia num mundo que não era dela. Aceitava o inaceitável, mas não descia do salto. Enquanto ela se rasgava em lágrimas que não escorriam na sua face, mas que sentia molhar antes mesmo que a gota caísse do céu sobre ela. Preferiu esconder, por qual motivo eu não sei. Enquanto ele se lambuzava da sua bondade inocente. A dama da noite era embalada por uma magia de tal forma que de longe parecia até verdade. A falsidade contamina. Lá dentro dela, algo lutava constantemente para que essa doença não impregnasse a sua alma. A porta estava aberta, mas ele escolheu pular a janela, e lançar as correntes sobre ela. Era um odor interminável, mas ela não sentia o suor ardido da alma dele, que chorava implorando por maldade. Por vezes, o sorriso dela desinfetava. Mas tudo era passageiro.

Amanheceu, e ela não conseguia levantar para ver o sol nascer depois daquela noite, sentia-se sugada por um ciclo vicioso psicótico de más condutas, conceitos pré concebidos de uma mente inteligente, porém malcriada. Ela estava murcha, aprisionada quase morta deitada no caixão esperando que alguém fechasse a porta. Já que o seu sapato ele já havia encontrado. O falso brilho era de uma intensidade tão forte que ela não tinha coragem de fechar a porta, não naquele momento. Ela não tinha se quer forças para esticar o braço ao alcance da maçaneta, que dirá esconder o pé descalço. O dia se arrastava fadigando as dores do casal. Naquele mundo existe regras surreais conduzidas por um maníaco possuído pela loucura de uma paixão doentia.

Sleep Paralysis by Goñi Montes.
‘Sleep Paralysis’. © Goñi Montes

Ao final da ceia, ela já não aguentava mais, e em prantos implorou para que a deixasse partir, e ao vê-la definhando, só foi capaz de acarinhar o seu próprio ego. Bateu no peito, estufou e disse: “você é a mulher dos meus sonhos, a minha princesa”. Aquele peito liso coberto de seda fina fedia pior que fossa aberta, o coração estava ardido e imprensado de tal forma que não conseguia amar.

Ela dormia numa falsa paz encoberta pela esperança em noites frias, na fantasia de encontrar o sapato que encaixe perfeito no seu pé descalço. Os dedos ao relento sofriam com a frieza do tempo vergonhoso de suas escolhas. O que um dia te pareceu certo, tornou-se errado a meia noite. Acorda, Cinderela – o encanto passou. O sapato que escorregou do pé naquela noite já não encaixa mais. Paixões loucas desvairadas duram o tempo de uma noite de encanto, onde a partida de um jogo de sedução termina a meia noite. A realidade chega quando a magia arruma as malas e decide partir. Se restar apenas aparências, a tendência é o chão rachar e abrir um buraco que te leva ao vazio terrível. Ninguém vive de Cinderela o resto da vida. O mundo não é um conto de fadas, apesar de muitos casais viverem maquiados. Não se encante com o brilho das falsas bijuterias usadas por pessoas cínicas, pois quase sempre é tenebroso e o rímel escorre manchando todo o rosto. Muitos casais vivem de relações que é de uma pobreza tão podre que chego a sentir o cheiro da hipocrisia de longe. Desculpe a minha humilde face lavada e a minha sinceridade pontuda que por vezes possa te trazer questionamentos dentro de si, mas eu não posso me abster em dizer – Eu não sei amar algo que não seja o amor.