Início 6º SENTIDO Como amar alguém que não te ama?

Como amar alguém que não te ama?

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Todo amor platônico tem uma pergunta simples, e ela, possivelmente, não tem uma única resposta.

Alguém chega e te conquista com um sorriso largo. Meio que sem perceber leva o seu coração embora, e por deslize esquece de devolvê-lo. Sem nem ao menos tocá-lo, faz crescer em ti uma paixão silenciosa. E o que te resta é observar à distância o contorno do rosto e cabelos longos que formam suaves cachos nas pontas meio aloiradas. Você cruza o olhar em silêncio, como quem seduz um beijo, daquele bem demorado, ora lento, ora intenso. Aí te vem um desejo louco de beijar aquela boca, e deixar de ser apenas um parênteses. O seu lábio superior carnudo tocando sem parar o inferior. Demore o tempo que for, os desejos pessoais por mais esquisitos que forem, viram realidade. Mas não adianta, apenas, idealizar. Mostre que apesar de não correspondido, o seu amor é verdadeiro.

A Young Girl Defending Herself Against Eros (1880), pintura de William-Adolphe Bouguereau
“A Young Girl Defending Herself Against Eros (1880)”, de William-Adolphe Bouguereau. © Domínio Público

O termo “Amor platonicus” foi, pela primeira vez, utilizado no século XV pelo filósofo neoplatônico florentino, Marsilio Ficino, como um sinônimo de “amor socrático”. Ambas as expressões significam um amor centrado na beleza do caráter e na inteligência de uma pessoa, em detrimento dos atributos físicos. Referem-se ao laço especial de afeto entre dois homens a que Platão se tinha referido num de seus diálogos, exemplificando-o com o afeto que havia entre Sócrates e os discípulos, em particular entre Sócrates e Alcibíades.

A expressão ganhou nova acepção com a publicação da obra de Sir William Davenant, “Platonic Lovers” (Amantes Platônicos – 1636), onde o poeta inglês baseia-se na concepção de amor contida em O Banquete de Platão, do amor como sendo a raiz de todas as virtudes e da Verdade.

Platão defendia que o Verdadeiro Amor nunca deveria ser concretizado, pois quando se ama tende-se a cultuar a pessoa amada com as virtudes do que é perfeito. Quando esse amor é concretizado, não raro aparecem os nativos defeitos de caráter da pessoa amada.

Essa é a resposta para questões tão claras e evidentes. Outra, mais óbvia, é o acontecimento dos casos de pessoas que se apaixonam por outra que nem as enxergam na sua frente. Há quem goste da relação utópica e, inconscientemente fantasiam e idealizam um amor que pertence apenas a um coração, uma alma, uma pessoa. O que estraga é a tal cegueira. Observe que, você sente a perda de algo que nunca teve. Pode ser que a pessoa até “queira” amar você, mas simplesmente não ame, por razões que ela não entenda e possa nunca vir a entender. Algumas vezes, o sentimento apenas não existe. Você pode também acabar descobrindo que é carência. Às vezes achamos que “precisamos” do amor daquela pessoa pra sentir-se feliz. O que é um grande erro. Já que esta não é a única forma de estar feliz.

Musician Angel, pintado por Rosso Fiorentino em 1520.
“Musician Angel”, pintado por Rosso Fiorentino (Giovanni Battista di Jocopo) em 1520. © Domínio Público

O universo do amor incondicional é raro e pouco habitado. Ele nos conduz a nobreza de um coração que realmente ama de verdade. Abre portas e põe pra fora todo o apego da matéria. O amor na sua forma mais pura e poética, estende como um manto sobre os tolos desesperados, um sentimento profundamente transformador que não sabíamos existir. Sentir-se feliz por outro de verdade, mesmo que aquela felicidade não lhe inclua. Com amor incondicional não há sentimento de perda, porque toda sua felicidade vem do ato de dar amor, não de receber.