Início 6º SENTIDO No Dia que a Mentira Nasceu

No Dia que a Mentira Nasceu

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No dia que a mentira nasceu eu cismei que era verdade e esqueci de me proteger. Meus ouvidos quase sempre são um canal no horizonte toda vez que alguém profere palavras muito bem colocadas. E nesta hora eu sempre tossia um pouco franzindo a testa e arqueando as sobrancelhas, torcendo para que tudo aquilo fosse verdade. Fiquei na dúvida se era verdade ou mentira, então eu fingi um belo sorriso por que o dia amanheceu tão lindo. Que nome tem alguém que tem todos os motivos para dizer verdades, mas insiste em experimentar o delicioso prazer de dizer mentiras?

A mentira nasceu
Ui… A mentira nasceu. Foto: Reprodução

No dia que a mentira nasceu, fui fazer exame de endoscopia. Enquanto o médico não vinha, as enfermeiras faziam os preparativos para a realização do procedimento. Quando a anestesia adentrou em minhas veias as últimas palavras que consegui escutar, minutos antes de fechar os olhos, foi a enfermeira dizendo que o réveillon é a festa da falsidade, onde pessoas que passaram o ano inteiro sem nem ao menos querer saber notícias suas, te ligam e desejam todas aquelas palavras ensaiadas como quem escuta a fita rebobinando e tocando outra vez. Foi mais forte do que eu, adormeci.

Acordei com o resultado do exame. Ainda sonolenta descobri que estou com esofagite – o tubo que liga a parte posterior da boca ao estômago encontra-se inflamada. Não adquiri falando mentira direta de quem esconde algo ou precisa fugir até mesmo de si próprio. Tudo indica que foi proveniente de sucessoras crises de refluxo. Mas o problema não é o que entra pela boca, e sim o que sai dela. É que escutar mentiras me causa enjoos, e a depender da quantidade, me faz regurgitar.

Foram duas golfadas. A primeira foi tão brusca que escorreu pelas vias nasais, com alguns pedaços do jantar de ontem a noite. A segunda foi mais lenta e rala, mas queimou de uma forma tão intensa que me fez perder a voz. A boca de seca ficou molhada com o gosto de vômito aguado. A mentira me abraçou, apertou a minha boca como era de costume e não me deixou dizer uma só palavra.

Sabes lá quando foi, se no nascer ou por do sol, ou lua cheia em noite escura. Da boca de quem diz nasce o que é não ser, fingir ter, e não ter e nem si quer ser para se doar. É não saber falar, não se entregar. Sem saber que o outro sabe ou acredita saber. Enganar, fingir ser, ou ter. Mentir aprisiona a alma. Corrói por dentro e desanima o coração. Viver nessa vidinha de mentiras, falsidade, medos, só atrai energias ruins. É doença de alma que desce ladeira abaixo.

Todos os dedos cruzados!
Todos os dedos cruzados! Foto: Reprodução

Contudo, mentir é uma arte tamanha que por muitas vezes nos deixa cabisbaixo e sem saber o que dizer. Pois quem sabe a arte de mentir, acredita até mesmo na própria mentira dita. Finge sentir o que não se sente, mente tão bem que parece até verdade no ouvido de quem consegue ser sincera até consigo mesma.

Eu fui feita para a verdade, mesmo que tenha que ferir-me por tantas vezes escutar tamanha sinceridade. Pois só de sentir a mentira alheia já me desfaleço, a garganta queima novamente. Mantenho-me sempre viva, acordada, alerta e verdadeira. Ativar os sentidos da alma, faz o universo convidar a ter emoções leves.

No dia que a mentira nasceu, eu fiquei sem palavras.

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Laila GuedesLaila Guedes é publicitária, produtora, roteirista e diretora de vídeos e programas de TV. Fotógrafa nas horas vagas, também é apaixonada por música, literatura e cinema. Uma mulher comum com pensamentos comuns. O que difere é que ama com o coração e permite que a sua alma seja tocada, sem deixar de acreditar. Vive um estilo de vida saudável, cuida do Corpo, da Mente e da Alma. Quer saber mais? Acesse o seu blog pessoal.

  • elisangela

    Laila amei este texto!!!é tão verdadeiro e real neste mundo de falsidades e falsas ilusões.Continue soltando sua palavras pois a mentira morre quando surge a verdade!Beijos

    • Laila Guedes

      Verdade…verdade…verdade!!! E que sejamos muito mais VERDADE no túmulo da mentira. Obrigada Eli. Abs

  • Ana Luísa Neves

    Muito bem!
    Bem vinda ao grupo da malta do refluxo . . .
    Se te compreendo!
    Mas olha, pega na mentira e brinca com ela, inteligentemente, ou o estômago te promete muitos refluxos!
    Boas melhoras! 🙂
    Bjs

    • Laila Guedes

      Agradeço a dica, Ana Luísa. Já adquirir um detector de mentiras infalível, o qual fazerem uso com preferência (risos). Abs

  • VELHO COUTO

    A SENHORA ESCREVE COM A SIMPLICIDADE DE QUEM SORRI EXPONTANEAMENTE. GOSTOS DE SEUS TEMAS E DA MANEIRA COMO OS DESENVOLVE. FOSSE ALGO DALGUMA EDITORA, SUA PESSOA NÃO ME ESCAPARIA. PARABÉNS PELO QUE SOIS E PELO QUE, E COMO ESCREVES.
    ABRAÇOS SABOR AMIGO.

    • Laila Guedes

      Muito bacana saber que gosta e entende a maneira como exponho minhas idéias. Volte sempre, seu comentário é de muito importância. Agradeço o cainho e elogios. Abs

  • Geo Vieira

    Não me canso de lhe parabenizar, ou melhor, não me canso de vc. E pode ter certeza que essa declaração não vai te causar refluxo, pois meu carinho e admiração por ti é extremamente verdadeira. Sou seu fã. Bjssss e muito mais sucesso.

    • Laila Guedes

      Que linda declaração Geo. Vindo de ti sei o quanto é sincera. Mas que você é meu fã essa eu não sabia (risos). Volte sempre! Bjs

  • Lia

    Gosto da maneira como expõe idéias simples. Você tem um estilo misterioso, não diz diretamente e poetisa em alguns trechos. Diferente de tantos outros textos que apenas nos mantém informado, mas isso eu encontro em inúmeros sites. Você é diferente, é especial. Tem o dom da Arte. Você consegue tocar a minha alma toda vez que leio e me deixo levar por sua poesia, pois não busco apenas informação e sim a sensação de que as palavras tem efeito em mim, sacode o meu espírito. Continue escrevendo, você tem muito talento. Parabéns!!!

    • Laila Guedes

      Nossa Lia, que profundo seu comentário. Agradeço as palavras e os elogios. Continuarei escrevendo sim, sempre que tiver inspiração! Abs

  • Ludmila

    Que nome tem alguém que tem todos os motivos para dizer verdades, mas insiste em experimentar o delicioso prazer de dizer mentiras?… É mentiroso ou doente de alma, tanto faz. E infelizmente, existe muitos por ai disfarçado de “verdadeiros”. Parabéns, vc escreve muito bem.

    • Laila Guedes

      E como tem, Ludmila. Mas acredito que todos nós podemos ser mais verdadeiros, só depende de nós, das nossas escolhas. Obrigada pelo carinho. Abs

  • Robert

    Também estou sem palavras. Sinto verdade e muito da sua alma. Parabéns!

    • Laila Guedes

      Obrigada Robert. Venha sempre ler novos textos. Abs

  • Renata

    Infelizmente, a mentira nasce todos os dias… mas também há de morrer! Assim espero. Vc me parece bem verdadeira, é o que sinto ao ler seus textos.

    • Laila Guedes

      Pois é, Renata! Um doença da alma onde o doente não percebe que está doente e por isso não busca a cura. E o pior acha que viver assim é saudável e faz a bem.