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Eu Detesto!

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Eu detesto quando eu digo uma coisa, e ele entende outra. Tira-me do sério com tanta facilidade. Faz cara de desentendido, mas não deixa passar nada. Ele é ardor e alívio, intenso e suave, homem e menino, tudo ao mesmo tempo. Mas ele é apenas um amigo.

Ilustração feita por Marta T (Seviet).
Ilustração feita por Marta T, virtualmente conhecida como Seviet.

Eu detesto ter um e sessenta e sete e, ele um e noventa e dois, quase cem quilos e, eu quase metade disso. Ele me joga nas alturas e me faz sentir tão pequena. Me carrega e me põe nos ombros. Eu detesto quando ele me chama de linda, sabendo que ele chama todas assim, apesar de meu ‘linda’ ter uma entonação mais longa no “iiiin”. E quando ele inicia todas as frases com menina, quando o meu desejo é ser a sua… Eu detesto ter que ser a primeira a falar quando já estamos a mais de uma semana sem trocar uma palavra.

Detesto sonhar e noutro dia acordar sem lembrar de nada, e ter que me contentar apenas com a sensação de que o sonho foi com ele. Eu detesto porque a gente é preto e branco, mas deveria ser colorido. Eu detesto aquela camisa branca lisa encobrindo a pele morena que deixa ele mais sexy. Assim como o seu cabelo que já tem seis semanas que não corta, fica grande e os meus dedos se perdem no vai e vem de um cafuné como um ímã.

Eu detesto quando paro o meu carro em frente a casa dele, espero uns quinze minutos e, na hora em que abro a porta do carro, sinto aquele cheiro. Isso me desconcerta de um jeito, que eu detesto. Eu sempre ganho um beijo macio no rosto. Eu detesto quando estou com ele, a sós, e ele senta no sofá, não diz nada, eu não aguento, caminho em sua direção, sinto vontade de pular em cima dele e me encaixar implorando por algo mais. Eu detesto quando ele se estica enquanto recebe meus carinhos, quando mira aqueles olhos claros adentrando os meus que são quase pretos de tão escuros, e quando ele chora fica verde da cor do mar, parece me acompanhar. Eu sei que ele também detesta, mas eu detesto mais.

Ilustração feita por Marta T (seviet).
Ilustração feita por Marta T (seviet).

E confesso que cinco minutos depois de ter trocado as últimas palavras com ele, eu já sinto saudade. Eu detesto sentir que o cheiro dele ainda está em mim, que sinto algo e, estou tentando fingir que não sinto, mas não consigo. É difícil ter que admitir que entre um parágrafo e outro, não parei de pensar nele, tentando imaginar o que ele está fazendo sem mim.

Tem coisas que eu prefiro dizer que detesto por vergonha de gostar demais ou por medo de me magoar ou por não saber bem o que é. De repente, sei que vou morrer de vergonha depois que acabar de escrever, pelo grande risco dele ser você que está lendo.

– Eu detesto você, e tudo o que você faz.

  • Ana Luísa Neves

    Minha querida:
    Continue a detestar, porque vem e há muitos por aí, nos “aí” e “aqui” deste mundo!
    Como diriam “alguéns” cá desta banda “eles andem aí” cheios de perfume transpirando sensualidade por todos os poros, que até dá raiva de serem tão irresistíveis, mas eles são mesmo assim.
    Sejamos nós as irresistíveis, por quem voltas ao mundo não dariam para que deles nunca esquecêssemos ou trocássemos 😀

    Bem haja 🙂

    Ana Luísa Neves

    • Laila Guedes

      Ana Luísa Neves, agradeço suas palavras cheias de experiência e sabedoria! Desejo que muitos que por aqui passem e tenham a oportunidade de ler o texto possam reverter rapidamente a situação, foi como disse “por quem voltas ao mundo não dariam”. E que assim seja! Abs, Laila Guedes

  • Me identifiquei bastante com a situação retratada por vc, Laila. Acho q todo mundo já deve ter vivenciado algo parecido, pelo menos uma vez. Eu já vivi algo assim e bem isso q tu comunica nesse texto. Vc escreve de uma forma tão agradável de se ler e nos traz reflexões sutis de um jeito diferenciado. Mto bom garota, continue assim!

    • Laila Guedes

      Obrigada Edvando! É interessante quando a gente não ler o texto e acontece exatamente ao contrário, o texto é que nos ler, principalmente quando a gente tenta esconder, mas as palavras nos segue e revela muitas vezes sem a gente perceber. Esse texto é nosso e muito mais que isso, de muitos! Abs, Laila Guedes

  • Brisa Torres

    Bacana o texto, Laila! Pergunta: pq vc não detesta mais ainda sua falta de coragem em falar o que sente para ele? Que tal encaminhar o link desse texto lindo? melhor do que “fica a dica!” é “dar a dica”….Boa sorte! rsrsrs…

    • Laila Guedes

      Brisa, vc fala sério??? … Irei responder com um poema de Fernando Pessoa…

      AUTOPSICOGRAFIA
      O poeta é um fingidor.
      Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente.

      E os que lêem o que escreve,
      Na dor lida sentem bem,
      Não as duas que ele teve,
      Mas só a que eles não têm.

      E assim nas calhas de roda
      Gira, a entreter a razão,
      Esse comboio de corda
      Que se chama coração.

      Fernando Pessoa

  • Petit Gabi

    Complicado esse lance de “amor-amigo”… As vezes quando você sente algo assim por alguém próximo, mas que não tem certeza da recíproca, fica difícil saber a hora de se declarar ou se ao menos deve mesmo se declarar. Acho que no final das contas deve prevalecer o bom senso e a boa e velha intuição. Ele já deu sinais de que sente o mesmo? Talvez valha a pena arriscar. Se ele nunca demonstrou nada além de carinho, acho que não compensa arriscar a amizade. Pode ser que ele/ela não entenda bem e você fique com uma torta de climão para degustar enquanto afoga suas mágoas.

    • Laila Guedes

      Petit Gabi, o texto não é o que eu sinto, é o que muitas pessoas já sentiram, sentem ou sentirão!!! É um tipo de Crônica Narrativo-Descritiva. Bjs.

      • Petit Gabi

        Ah sim, isso ficou claro pra mim. O comentário voltado para o “você” é direcionado a qualquer um que tenha vivido ou esteja vivendo essa situação. Pensei ter sido mais clara. Bj

        • Laila Guedes

          Sou ótima em botar na primeira pessoa uma história que aconteceu com outro alguém, e por conta disso algumas pessoas confundem. Mas, fico feliz que entendeu, minha dúvida mesmo foi se a Brisa entendeu como vc entendeu. Bjs

  • Fernanda

    Quanta emoção com as palavras, quanta sinceridade. Sinto-me parte do seu texto. E quem nunca disse que não gosta querendo dizer que ama demais. Adorei. Parabéns! Você é uma excelente escritora.

    • Laila Guedes

      Obrigada, Fernanda! Volte sempre. Abs.

  • Pedro

    Senti verdade e muito carinho nas palavras, apesar da força contraditória do “Eu Detesto”. Parabéns! Adoro seus textos.

    • Laila Guedes

      “Eu Detesto” é tantas vezes um “Eu gosto muito”, outras vezes “Eu Te amo”. Abs.

  • Renata

    Que fofo esse texto. Um amor amigo, e dizem que esse tipo de amor nunca morre.

    • Laila Guedes

      Sim, se o amor for de verdade nada destrói, nem o tempo, nem os impasses da vida, nem a distância, por que quando se é verdadeiro é real e dura. Abs

  • Duda Caribé

    Quanto sentimento, emoção e desejo… Nossa!!!
    Fantástico!!!

    • Laila Guedes

      Pessoas sensíveis como você Duda, sente tudo e até um pouco mais do que outras que não conseguem nem ler ou entender. Obrigada! Bjs e volta sempre.