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Filhos

Os meus filhos em sonho vieram ter comigo e segredaram-me ao ouvido o seu futuro. Nasceram onde ainda a palavra crise se ouvia, mas num lar doce, cheio de amor, onde a luz impera onde o ar cheira a pão acabado de fazer e a bolinhos ainda quentes. Nasceram num lar em que até os dias de chuva e tempestade são divertidos, todos são alegres e tudo é pretexto para uma nova brincadeira, uma nova invenção.

Free Little Girl
Free Little Girl”. Foto: D. Sharon Pruitt/Reprodução

Lá fora, onde o sol bate e a chuva cai, as vozes são baixas, as caras cabisbaixas e nem todos os dias se dão boas notícias. Eles foram cedo para a escola e os outros meninos eram cruéis com eles, apenas porque os meus filhos não se divertiam com brincadeiras das guerras, de roubos e de agressividade. Os outros meninos gozam com eles, apenas porque eles gostam de competir com brincadeiras que os tornam mais espertos e inteligentes, fortes e saudáveis. Os outros meninos chamam-lhes “mariquinhas” e eles não percebem o que significa e o porquê, viam as misérias e maldade na televisão e não conseguiam entender o porquê.

– Mãe, os meninos na escola têm brincadeiras que nos magoam e acham divertido tirarem-nos as coisas! – Porquê mãe?
– Porque assim aprenderam.
– Mãe, aquelas pessoas estão estendidas no chão e aquelas casas todas desmanchadas, porquê?
– Porque alguns meninos deixaram de ser meninos, cresceram, assim aprenderam e assim fizeram!

Continuaram na escola aprender sobre muita coisa no mundo, mas em casa o mundo era diferente.

– Mãe, na escola ensina-se muita coisa, mas para nós tanta mais não faz sentido nenhum, porquê?
– Porque as pessoas que vos ensinam cresceram!

Acabaram os primeiros anos de escola e quando se tornaram jovens púberes continuam o seu percurso com a sua rebeldia, mas com ideias de mudar o mundo. A adolescência fê-los sentir na pele as perdas dos amigos que se divertiam com o que os prejudicava, não bastando a pura experiência, apenas para saber como é, que dessa fase faz parte.

– Mãe, já morreram amigos meus com aquilo que sabiam que os ia matar e continuo a não entender o porquê!
– Porque não sabem o que são os limites e quem os criou não conseguiu fazê-los crescer!

Os meus filhos foram para a faculdade e mais aprenderam, ainda mais conheceram, muito mais cresceram. Tiveram as mesmas dificuldades em encontrar emprego que os da sua geração, até que a sorte lhes sorriu.

– Mãe, nascemos, vocês criaram-nos, alimentaram-nos, ensinaram-nos e nós crescemos felizes, apesar de todos os desgostos, dilemas, perdas e dificuldades. Mas o que é certo é que ainda não entendemos, porque razão têm os outros que escolher como são sabendo que assim é errado?
– Eles e vocês cresceram, mas o que vos fez ser como são, eles nunca deram a oportunidade de nascer, desenvolver-se e crescer.

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Ana Luísa NevesAna Luísa Neves, Portuguesa, Psicopedagoga. Trabalhei na Informação Médica, mas agora integro, com muito prazer, dois projectos relacionados com a saúde e geriatria. Tenho paixão pela música, pela leitura e escrita, ou não fosse eu uma mulher de longas paixões. A amizade tem um valor incalculável, o que contribui para o meu lema: Fazer o bem, faz e faz-me bem! Seu blog pessoal é o Coisas da Vida e o twitter @analuisanesi.