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Menino Novo

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Dizem por aí que é coisa de menino novo, de amor novo. De princípio, início, de tudo novo. Uma vez eu conheci o amor de perto. Um sentimento bonito e universal. Um menino. Eu estava agarrada no coração, feito alma que encarna. Na barra da saia, todo novo amor é um grude só, pode reparar. Ah, mas eu vou agarrar com tanta força e não irei largar por nada. Preste atenção, trata-se de um sentimento raro, daqueles que a dúvida vai embora quando o clarão aparece pra dizer o que não se entende com palavras. Nada tem haver com a matéria, é tudo de alma. Já procurei um raciocínio lógico, uma explicação mensurável. Já li livros teóricos, filosóficos, religiosos, mas nada se compara com o menino. Ele é bem mais forte e não existe juízo sobre isto. Mas então como é que se define algo que não é feito de palavras?

O amor representado pela singela pintura de Patrice Murciano.
O amor representado pela singela pintura de Patrice Murciano.

Eu não consigo vê-lo. Mas isso pouco importa. Basta senti-lo por dentro, como nos filmes que você não entende. Há contudo quem prefira a paixão avassaladora. Eu prefiro os dias amenos e frescos do amor. Paixão? Vem, dá e passa. Às vezes deixa marcas. Acho um pouco vazio, não durante, mas depois que passa. Apesar de ser muito bom quando se está apaixonado, não gosto do pós-parto. Do abandono. Do adeus. Do até nunca mais. Não gosto quando a paixão vai embora e nos deixa machucados, feridos por dentro, sentindo falta das ilusões que criamos durante e o agora nada aconteceu. Não gosto de paixão que se sente devendo algo. Não gosto de sofrer as dores de quando a paixão rasga bem feito. Não gosto não. Fica um buraco vazio. Uma lacuna que não foi preenchida. Uma esperança que não foi nutrida. Uma solução sem causa, onde não existe culpados, nem cúmplices, nem nada. Onde o que foi deveria ter sido, mas não foi. Foi apenas enquanto durou, foi só de passagem. Vem, dá e passa. Entendo que nada é pra sempre, que o importante é viver cada momento e que quando acaba a única obrigação é consigo, com sua própria consciência, de poder dizer a si que fez a sua parte enquanto durou. A paixão se foi, mas o amor não veio. Não desta vez. E, pra onde foi o menino?

Enfim, prefiro o amor. É tão mais sincero e mais bonito e mais raro e mais rico. Talvez não tão intenso. Não tão fervoroso. Não tão, tão, do jeito que nos deixa em alvoroço. Mas o amor, ele fala, conversa, compreende, entende, respeita. Esses dias eu estava deitada no chão frio, arrasada, devastada, angustiada. O amor veio e me estendeu a mão. Sem confusão, sem desesperança, sem agonia do dia seguinte que não chega e nem acontece. Eu aceitei o amor. E ali mesmo trocamos beijos, sem promessas, e ele não veio depois que a paixão se foi. Confesso que fiquei surpresa, tentando descobrir por que o amor escolhe pessoas simples, bem medianas. Do tipo que não espera o dia seguinte, apenas vive o que se tem para viver hoje.

A paixão representado pela singela pintura de Patrice Murciano.
A paixão representada pela pintura sexy de Patrice Murciano.

Mas nem sempre o amor vem. Nem sempre depois da paixão, antes, nem durante. Simplesmente, às vezes ele não vem. Não sei dizer bem ao certo o motivo, o porque, ou uma explicação para tal teoria, embasamento, tese, ou o que queira chamar quando o amor não vem. É que todo mundo acha que é assim, como se fosse uma regra simples de dois. Quando a paixão chega você encanta-se, vive dias intensos, muitas vezes meio loucos. Depois que a paixão vai o amor vem, e o amor olha pra você e espera pra ver se ele fica por ali um bom tempo. Mas nem sempre é assim, até porque para o amor não existe regras, nem começo, nem fim. Há sim uma continuação do ficou em outros tempos que a gente talvez não consiga lembrar. Mas a gente sente. Somos guiados constantemente, sem perceber. O amor nos atrai e nos une, como se fossemos metades completas que juntas causam um bem maior, e acontece assim, inesperadamente, para firmar o que já estava definido para você.

Pois é, fiquei de cara com o amor esses dias. Ninguém entendeu nada. Todos me olham como se eu fosse uma alucinada, criando e vendo coisas onde não existe. Por que como pode alguém amar sem antes se apaixonar? Mas eu sinto que ele chegou. O menino. Sabe o que é, o amor definitivamente não tem razão. Muito pelo contrário, ele faz parte do raríssimo lugar chamado coração. Onde a paixão acha que foi e não foi. Onde a paixão acha que atingiu, mas não atingiu. Onde a paixão acha que fez morada, mas não fez. Foi bem de raspão. Mas nem chegou perto de ser o que se é raro, apesar de não fazer feio no âmbito das emoções, é muitas vezes um sentimento adepto do sexo, onde o valor maior está no prazer do momento efêmero, do passageiro, do que vem, dá e passa. Já o amor é mais adepto da delicadeza ritmada, do carinho paciente e cuidado amoroso. É o pulsar do coração de uma vida mais harmônica e cheia de paz interior. O amor é de uma transparência tão clara, de uma força e suavidade que nos mostra o que existe além do que a nossa mente consiga processar. Não entendo muito bem, e não saberia explicar, mas eu o sinto agora, e o que posso dizer… É que o amor veio de um jeito forte e imediato, ao mesmo tempo que se mostra doce e suave, lento e profundamente. O amor é mesmo admirável! Não existe mágoas do passado, nem os medos das incertezas do futuro. Existe tão e somente o momento agora, o presente. Não existe o ontem, nem o que será, apenas o momento em que se está.

Pintura em acrílico da coleção New Pop, de Patrice Murciano.
Pintura em acrílico da coleção New Pop. © Patrice Murciano

É que existem amores que se reencontram, e outros que se formam, que se constrói. Vem a paixão, depois com o passar do tempo, vem o amor. Ambos vividos por verdades. Mas nada é tão forte do que o amor de duas almas que se reencontram. Do tipo, eu e o menino. Até parece que ele veio assim do nada. E depois de velho, ainda assim é menino novo, e talvez você sinta que algo de especial vai acontecer. Quando o menino chegar bem claro e dizer: quero tudo de novo!