Início 6º SENTIDO Não Sei (Wish You Were Here)

Não Sei (Wish You Were Here)

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A pior parte do dia é ter que ir sem saber quando irei voltar. É que, eu queria ficar um pouco mais. Pra falar a verdade, queria apenas ficar. Porque é tão difícil dizer adeus a você?

Casal Céu, ilustração feita por Carla Irusta
Casal Céu”, teatro romântico com ilustrações recortadas. © Carla Irusta

E eu que em inúmeras vezes não disse nada, nem um até logo, a gente se vê, ou um simples tchau. Desde a última vez em que nos vimos, a garganta meio que travou, e me faltou o ar, as palavras. Eu não sei por onde andas, eu “não sei”, até queria ter dito alguma coisa, mas não consegui. Isso tudo acontece involuntariamente, e muitas vezes ganho fama de indecisa por não dizer nada (enquanto o normal seria dizer algo). E você não sabe, mas, assim que entrei no carro e fui embora, a tristeza se transformou em algo que ultrapassa a própria tristeza.

“Não sei” se você lembra bem daquela terça-feira, era quase madrugada, e a gente não dormia. Era quase um grito de dor, e a gente não sentia. Era quase um ato de confessar o que aquele romance queria de nós, ou talvez o que gostaria que fôssemos. O que ele insistia em nos fazer sentir, e nos tocar verdadeiramente, sem muita pressa de ser visceral. Tinha inocência, era indefeso aquele romance, muitas vezes frágil. De pontuadas emoções fortes, lentas, intensas, e pura. No verso de uma canção que implora incansavelmente por nós. O romance sentiu na pele as dores que os nossos corações não sentiram.

Queria que você estivesse aqui – e te contar que fui eu que te liguei aquelas vezes sem dizer nada só pra escutar a sua voz. E que apaguei tudo que estava escrevendo, e escrevi novamente repetidas vezes. É que eu me sinto infantil demais em confessar certas coisas. Já passei a mão no cabelo a cada cinco segundos, pegando um pedaço e enrolando nos dedos até o final. É que eu não sei bem o que fazer quando estou com você. Onde colocar as mãos, o que dizer, se digo, se não digo. Por isso, acabo não dizendo nada. Você desperta a minha covardia, que sempre espera por você. E ela grita: faz alguma coisa, por que eu “não sei” o que fazer nos dias que eu penso em você. Chego a pegar o telefone para te ligar, mas não ligo esperando que você faça antes de mim.

Eu sei que muita coisa mudou, mesmo que você não perceba, ou perceba. Aliás, eu “não sei” se você carrega esse “não sei” consigo também. Essa incerteza que massacra e faz lacrimejar sem nem chorar. É justamente esse “não sei”, uma simples expressão com duas palavras que me dá uma tremenda coceira por dentro. “Não sei” se você pensa em mim, “não sei” se ainda me quer, “não sei” se ainda causa alvoroço, “não sei” a impressão que ficou. “Não sei” se seremos, não sei, não sei. Esse “não sei” é o que aperta e me apunhala lentamente todos os dias… Não sei, não sei… “Não sei” é um paraíso do inferno, é a possibilidade impossível, é a combinação da certeza com a incerteza, é o quase que não sustenta quase nada, quando se quer tudo… “Não sei” é vago e amplo. É dor aliviada, e “não sei” tantas vezes também é “sim, eu sei” disfarçadamente. É que esse “não sei” me fez prometer coisas que não se pode cumprir sozinho. E isso me incomoda. É mais fácil dizer “não sei” quando se tem dúvida, ou mais prudente, ou mais comum, ou mais normal? Não, não é! O coitado do “não sei” só sabe que é dúvida e todo o resto ele só tenta saber, mas fica louco e desiste. O “não sei” é de uma simplicidade que o torna ainda mais cheio de dúvidas.

Processo de montagem de recortes da ilustração Casal Céu, de Carla Irusta
Processo de montagem de recortes da ilustração “Casal Céu”. © Carla Irusta

Nove minutos é o tempo que demoro pra escovar os dentes. Como eu queria que você estivesse aqui, pra te ver ri de mim com a boca cheia de espuma branca que a pasta faz quando a gente escova e escova, e depois cospe e joga fora. Pra te dizer que o melhor momento do dia é quando você cola o rosto na minha barriga, e me deixa imóvel. Pra revelar que eu não sou muito de tomar café com leite, mas com você eu gosto. É que falo “iogute”, assim mesmo sem o “r”, que nem criança, por isso eu nunca peço. Tão boba eu, tão boba. Você nem sabe dessas coisas.

Nove minutos é o meu recorde sem pensar em você, eu “não sei”, não tenho tanta certeza, acho que sim. E que importância tem se são minutos ou segundos, é sempre pela primeira vez. A quarta faixa do nono álbum da banda britânica de rock canta tudo o que eu não cantei. E daí que eu “não sei”, é sempre pela primeira vez, quando a música toca. E você me olha no exato momento em que o Pink Floyd se faz marcante ao protestar Wish You Were Here. Imagino como seria diferente se a nossa música fosse conjugada no presente, mas, “não sei”.

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Laila GuedesLaila Guedes é publicitária, produtora, roteirista e diretora de vídeos e programas de TV. Fotógrafa nas horas vagas, também é apaixonada por música, literatura e cinema. Uma mulher comum com pensamentos comuns. O que difere é que ama com o coração e permite que a sua alma seja tocada, sem deixar de acreditar. Vive um estilo de vida saudável, cuida do Corpo, da Mente e da Alma. Quer saber mais? Acesse o seu blog pessoal.

  • Rose Rocha

    sabe-se exatamente o que quer…. só precisa dizer. E pra dizer muitas vezes dispensamos as palavras… aguardamos o gesto, o olhar tocante e revelador… (mas as vezes não é suficientemente convincente, pode ser duvidoso e daí a gente precisa eleger as palavras certas e falar ou cantar rsrs) a intromissão do ar que nos faz viver, não pede licença, entra no nosso corpo e faz o que precisa fazer, às vezes até passa despercebido (cotidiano, a gente não pensa pra respirar, só respira). Quando o que importa não está próximo, quem a gente importou pro coração, porque sem querer a gente algema as mãos, põe grades nos olhos e algodão nos ouvidos… quando a gente ama, o amor desata os nós (é como o ar), cabe a nós fazer o desenho do laço e se dar num abraço… difícil é se livrar do medo, mas o medo não pode paralisar os sentidos! Para saber verdadeiramente o que quer, é preciso ouvir o que o coração quem diz, pq é nele que está tudo o que importa. “Nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos.” Lya Luft

    • Laila Guedes

      Que lindo Rose!!! Agradeço as palavras muito bem colocadas. Abs!

  • Grazi

    Excelente Texto! Uma clara demonstração de ansiedade e indecisão decorrente dos amantes, apaixonados. Uma fase que sempre passamos, que ferve um turbilhão de sensações que por vezes não sabemos mesmo o que está acontecendo com nós.

    • Laila Guedes

      Obrigada, Grazi! Abs.

  • Lima

    Que lindo esse texto, tão profundo ao expressar o sentimento da Paixão e da dúvida. Sinto verdade nas palavras. Parabéns!!!

    • Laila Guedes

      Sim, as palavras são sinceras e verdadeiras. Fico feliz que conseguiu sentir o que eu também sinto. Abs.

  • Dany

    As pessoas atualmente vivem meio assim em busca de sentimentos e emoções fortes e intensas. E essas indecisões tão comuns na vida dos apaixonados faz com que algumas pessoas não tenham a coragem para expressar para o outro, por medo, por fraqueza, por dúvida, por covardia, por pensar que vai parecer ridícula, ou “não sei” o porquê, tentam esconder algo que está tão claro num olhar, num gesto, no silêncio de cada um de nós! Gostei muito do texto, bem profundo e revelador, eu diria… APAIXONEI!

    • Laila Guedes

      Concordo contigo, Dany!!! Volte sempre e leia outros textos. Abs

  • Carol

    Excelente texto. Adorei. Parabéns!!!

    • Laila Guedes

      Obrigada, Carol! Abs.

  • elis

    Bacana o texto Laila…o amor tem dessas coisas…nos deixa com dúvidas, com medos, imaginações…sem muitas certezas, só sentimentos.
    O problema é quando, por não sabermos, deixamos de fazer, de falar, de ouvir…de arriscar!
    Ler seu texto me fez refletir sobre as duvidas que tive na vida…o quão estas me paralisou momentaneamente. O quão eu deixei de viver, de sentir, de falar…só por medo de não saber no que daria.
    A vida é assim não sabemos de muita coisa….então vamos buscar respostas na pratica…vamos buscar o amor ,amando. Um sorriso, as vezes chorando. Um consolo na solidão ou no colo de alguém…nunca saberemos quem nos dará a mao, nos dará um beijo, nos amará loucamente, nos decpcionara….então…viva la vida intensa!!!

    • Laila Guedes

      Tudo neste texto é tão especial que até os comentários por mais profundos e simples que sejam me emocionam. Há verdade, há sentimento, do mais puro e profundo, pq foi tão especial escrevê-lo que por vezes algumas pessoas não consigam entender, pelo simples fato de querer entender o que não se entende. Fico feliz com seu comentário, tanto que me emocionei ao sentir que não quis entender o contexto por si só, mas foi além, muito mais profundo. Vc sentiu o texto na sua essência mais comum. Obrigada, Elis. Abs.

  • Lia

    Sinceramente, espero que a vida dê uma nova oportunidade para um sentimento tão raro nos dias de hoje que as pessoas vivem muito mais de aparência, carência, conveniência… Eu prefiro um “Não Sei” do que viver um falso amor. Lindo Texto, verdadeiro, chego a escutar as súplicas do seu coração. Parabéns. Suas palavras tem um força que me faz acreditar ainda mais no Amor, no amar como se deve amar.

    • Laila Guedes

      Que bom Lia, acredite sempre no Amor, ele existe e é mais forte do que se possa imaginar. Abs

  • Renata

    A paixão nos causa muitas dúvidas, mas quando o amor vinher terá a certeza que tanto busca. Esse textos é profundo e cheio de doçura.

    • Laila Guedes

      Com certeza Renata, tanto o amor quanto a paixão tem seus encantos e seu momento para acontecer. Abs