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A Era da Obsolescência Programada

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O que me motivou a escrever esse artigo em primeira pessoa foi o meu atual aparelho de… Telefone? Celular? Smartphone com ou sem sistema operacional Android? Ou sei lá quantos nomes mais tenha esse aparelhinho de “fazer ligações”, e como cheguei até ele.

Obsolescência Programada - Relógio Cássio descartado em local inadequado.
Descarte de produtos em local inadequado e com hora marcada. Foto: Reprodução

Trabalho online com marketing digital. Preciso acompanhar o que rola em todas as páginas e perfis de clientes que monitoro em tempo integral. O que me gerou à necessidade de estar o tempo todo conectada.

Tanto na esfera pessoal quanto profissional, não foi diferente. De uma hora para outra, ninguém mais queria me ligar, era tudo via ‘Whatsapp’. A princípio, eu acreditava estar adaptada e conectada em todas as mídias: LinkedIn, G+, Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr, etc. No mundo digital, a crossmedia ou cruzamento de mídias é extremamente necessário para quem deseja visibilidade.

Mas aos poucos fui descobrindo, não pelo mercado mas por solicitações de familiares e amigos, que eu ainda precisaria de mais uma dezena de aplicativos. Me perguntem pra quê? No final, acabamos resolvendo tudo na boa e velha ligação ou no email mesmo.

Comprometedor para quem trabalha com marketing digital, não? Até aí tudo bem, sem maiores resistências. Então, como eu dizia, os amigos e familiares passaram a me cobrar: chegou a vez do Whatsapp! – e outras dezenas de aplicativos – todos eles gratuitos ou num preço irrisório para adquirir. Contudo, para manter, aí é que “entrava o velho marketing da coisa”.

Me considero uma pessoa atualizada e conectada com as mudanças do mundo. Mas antes disso, a conexão via internet e outros meios de comunicação começa com os recursos e insumos que geram um produto. De onde eles vêm? Como são substituídos? Para onde vão? Você sabe?

Obsolescência Programada - Ilustração que demonstra o ideal de consumo.
Ilustração que demonstra o ideal de consumo.

São novidades e mais novidades a cada minuto. Em contrapartida, toneladas e mais toneladas de lixo eletrônico são descartados no planeta a cada ano.

A obsolescência programada e perceptiva faz com que os produtos simplesmente deixem de ser úteis com uma simples lavagem cerebral publicitária: “agora, não se liga mais para saber como vai o amigo ou​ o parente,​ tampouco se envia um SMS; agora é tudo por Whatsapp [que em breve será superado pelo Zello] … e já existe o Voip também.

Então, todo mundo que não tiver um telefone com capacidade de suportar os “aplicativos bola da vez” ​será obrigado a jogar tudo fora e se adequar aos novos aparelhos: mais modernos, mais funcionais, com mais memória, com novo design.

Será mesmo? Existem algumas coisas sobre desapegar-se do passado e adaptar-se ao futuro que todo mundo deveria saber antes de entrar nessa “onda”.

Quando um novo produto é lançado, três ​outros ​mais evoluídos do que ele já estão esperando ​para entrar no mercado. Mas antes disso, usa-se estratégias de ​impressionismo através de Penetração. Funciona assim: lançamos a novidade primeiro, e, somente quem puder pagar altos preços pela inovação, poderá adquirir​, emprestando endorse e glamour​.

Isso fomentará – através de Selfies e celebridades – os indivíduos a postarem fotos na rede social com suas “novidades”, deixando um gostinho nas castas inferiores de “também quero!”

Selfie Simpsons Oscar 2014.
Ilustração que recria a Selfie das celebridades no Oscar 2014 pela ótica dos ‘Simpsons’.

Logo após, começa a fase da Desnatação: quando toda a nata da sociedade já tiver adquirido, então os preços começam a baixar, e vão baixando, baixando até que possam ser adquiridos por camadas economicamente inferiores e não menos sedentas por consumo.

E então, ​“​felizes​ e motivados”​, a grande massa ou a n​ova Classe C aparece com o último modelo que a patricinha rica – ou celebridade – usava em seus Selfies [óh não, aquele já foi substituído por outro!]

E ai vem a frustração: “Óh vida, óh céus, vou precisar trabalhar mais um ano para pagar este aparelho e só depois poder adquirir o outro!” [Poder? Você perdeu o poder!]

Linha de produção de uma fábrica chinesa.
Linha de produção de uma fábrica chinesa. Foto: Reprodução

O consumo é gerado por uma ilusão provocada diariamente pela mídia: primeiro vem a ilusão de que com um produto melhor, você ‘Pode Mais​’- com letra maiúscula. E quanto mais você pode, menos você pode. É inversamente contrário.

A mágica começa quando alguém pensa com uma voz monótona em gerar um problema na sua cabeça. Assim são as propagandas, gatilhos emocionais que te dizem o quão está estressante, está ruim: “é trânsito, são contas para pagar, é o aumento de peso na balança, é o primeiro fio de cabelo branco, é protesto pra todo lado [de onde vem toda essa insatisfação? Não será da própria mídia?], é gente que não presta, a maldade com os animais, a celulite, filhos incomodando”; são tantos preceitos criados, que o indivíduo quase mais nem consegue respirar.

É quando adentra a clássica voz alta, motivada, feliz, “de bem com a vida”, com pessoas bonitas, malhadas e bem sucedidas te dizendo qual é a solução. E ai entram todos os esforços e sacrifícios aos quais os trabalhadores se submetem para ter o que não precisam, para parecem menos pobres e ser o que não são. Mais um ano regado a muito trabalho, consumo, frustração, remédios, lixo; mais um ano que se vai.

Então, quando meu antigo aparelho de telefone já não era mais “útil” para falar com meus clientes, amigos e parentes, baixei a cabeça e comprei um aparelho que suportava as novas funcionalidades, mesmo sabendo que o meu antigo iria parar na boca de uma tartaruga dentro do oceano atlântico, talvez pacífico.

De cara, o aparelho solicitou meu email e a partir daí, me rastreou, me sequestrou e traçou conexão com todas as minhas contas, clientes, conexões, circuitos e coisas que nem eu mais lembrava a meu respeito, afinal, são anos de cyber-rastros.

Pronto! Agora, se você roubar meu aparelho, ou eu tenho sorte de conseguir ligar para minha operadora para bloquear a tempo ou você destrói toda a minha reputação em questão de 3 segundos e alguns dígitos alfanuméricos. A menos que eu compre um aplicativo que proteja meu aparelho com antifurto! Eis a solução! [?]

Não é novidade: os aparelhos celulares começaram grandes, então, a propaganda entrou e perguntou: “por que você vai parecer um tosco com um celular enorme, se pode ter um mini touch que é mais chique, elegante e discreto?” [observe sempre o termo embutido de Poder]

Foi um delírio no começo dos anos 2000. Pobre de quem não tinha um mini celular. Até que eles voltaram a crescer, crescer e crescer; e hoje são do tamanho de uma telha. Quando toca – se você for mulher vai entender bem o que eu digo – precisa ficar 5 minutos procurando-o dentro da bolsa, pra depois acender uma luzinha, apertar um botãozinho que te leva numa tela dinâmica, ​escorrega pra direita e [oops! perdi a ligação]

E as baterias? Nada funcionais. Antes, as baterias duravam em média 7 dias. Agora, ficamos felizes se a bateria durar 12 horas.

Sério que alguém aqui acha isso funcional, inteligente, usual? Mas é claro que não!

Caricatura criticando o consumismo exagerado.
Caricatura criticando o consumismo exagerado.

Simplesmente estamos no embalo, estamos programados, acostumados a jogar o antigo produto na boca da tartaruga no oceano. Daqui uns 5 anos, os “moderninhos de hoje” dirão: “Antigamente, precisávamos fazer 3 movimentos para dizer alô, agora só precisamos passar nossa língua na tela e pronto!”

Mas, e se estivermos tomando antibióticos, será que o aparelho do futuro reconhecerá nossa saliva? Bom, não se preocupe! Até lá, haverão mais uma dezena de aplicativos baratos ou gratuitos que te permitirão fazer o reconhecimento de saliva, mesmo ingerindo o cocktail que for para manter-se sóbrio, ativo e competitivo na sociedade contemporânea​!

O preço? Ah, isso a gente vê depois. Afinal, a obsolescência programada está aí para todos. Deixo-os com uma propaganda divertidíssima da Nissan. Confira abaixo!

  • Ypsilone Yvone

    Ainda não existe
    um manual de bons modos sobre como usar esse aparelhinho, essa invenção
    magnífica sem a qual não conseguimos mais viver. Mas será que um pouco de bom
    senso já não bastaria? Confesso que tenho medo de onde o mundo vai parar se continuar nesta direção. Todos parecem estar vivendo a vida dos outros pelas redes sociais, perdendo sua identidade no intuito de registrar algum momento e estão deixando de vivê-lo.Tecnologia existe para tornar a nossa vida melhor, não pior. Esse é um critério que serve para tudo na vida.

    • Luciane Pires

      Olá Yvone, é verdade. O manual de boas maneiras deveria ter como precedente o bem estar do outro: se magoarmos alguém, não é uma boa maneira. Não é? Isso cabe também para a saúde dos animais e do meio ambiente.

      Obrigada pelos eu comentário.