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agora aqui ninguém precisa de si

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Nunca consegui ler poesias com a atenção que o gênero merece. Me disperso facilmente e acabo não absorvendo o que o autor quer (ou não) transmitir.

Arnaldo Antunes é um músico, poeta, compositor e artista visual brasileiro.

Quando quis pela primeira vez o livro agora aqui ninguém precisa de si foi porque era do Arnaldo Antunes. Não sabia do que se tratava, mas senti uma vontade deliciosa de ler. Acho que meu sexto sentido pra escolher livros está evoluindo.

Felizmente, recebi meu exemplar antes que minha vontade deliciosa se convertesse em “necessidade desejo”. Dando início àquele processo de descoberta de um novo livro, já fiquei boquiaberta com as capas. Todas as quatro feitas pelo Arnaldo Antunes. Para não me estender muito, darei “spoiler” apenas da primeira e da quarta capa – fotos tiradas no Aeroporto Senador Petrônio Portella, em Teresina. Nelas, a instrução sobre qual direção o passageiro deve seguir, teve que ser sobreposta, pois inicialmente foi pintada “pelo avesso”.

Durante um evento promovido pela editora Companhia das Letras, foi levantada a questão de que “roqueiros” tem fama de não gostarem de poesia. Posteriormente, Arnaldo Antunes foi questionado sobre um caminho mais dinâmico para que os jovens leitores se afeiçoem um pouco mais por esse gênero literário. Em resposta, o autor foi bem direto ao dizer que “os professores devem sair do convencional” e até sugeriu a leitura dos livros de Paulo Leminski.

Creio que Arnaldo Antunes possa falar sobre isso com propriedade, afinal, todo o projeto gráfico do livro é um convite à leitura de mais um poema! A diagramação dos textos fez com que eu – não adepta à leitura de poesia – avançasse rapidamente para a página seguinte, pois não havia mesmice, tédio, marasmo ou qualquer palavra que o valha.

Poemas com escassez de pontuação e variedade de sentidos, o nada sendo alguma coisa, os pesos diários, os estragos que a falta de determinação traz; poema que não consegui ler pausadamente. A diversidade de formas e temas fez com que meu carinho por esse livro se tornasse ainda maior.

Talvez essa obra tão carinhosa seja minha porta de entrada no mundo dos poemas.

Talvez ela possa ser a porta de entrada no mundo dos poemas de muitos leitores não adeptos à poesia.

Talvez seja bom que o livro tenha sido finalizado em solo brasileiro e não indiano, como o autor havia planejado.

Para terminar, deixo abaixo o poema intitulado (apenas no índice) coleção de esquecimentos – um dos meus preferidos e que, coincidentemente, foi recitado (de cor) pelo Arnaldo Antunes no mesmo evento promovido pela Companhia das Letras.

eu tenho uma coleção de esquecimentos
e apenas duas mãos para ver o mundo
meu dia passa inteiro num segundo
mas nada abafa a voz dos pensamentos

nem frontal e nem melantonina
eu tenho saudade de um soldado
do que haveria de ser o meu passado
de tudo o que escapou da minha sina

desculpas, culpas, lapsos de sinapses
impregnam minha corrente sanguínea
e sigo apassivando a carne ígnea
e aplainando os vértices dos ápices

eu sou o super-homem submisso
às rotas da rotina e ao tempo escasso
enquanto esqueço do próximo passo
anoto outro novo compromisso

queria estar a sós comigo mesmo
e ter a eternidade toda em torno
desfalecer no fogo desse forno
até me desfazer como um torresmo

Capa do livro agora aqui ninguém precisa de si, de Arnaldo Antunes (finalista do Prêmio Jabuti 2016 na categoria poesia).Ficha Técnica:

Título: agora aqui ninguém precisa de si
Autor: Arnaldo Antunes
Editora: Companhia das Letras
Revisão: Isabel Jorge Cury
Foto de Capa: Arnaldo Antunes
Lançamento: 2015
Gênero: Poesia brasileira

Nº de Páginas: 152
Formato: 15 x 21 cm
Acabamento: Brochura
ISBN: 9788535925968
Valor: r$ 34,90
Nota: 😺 😺 😺 😺 😺

Colaboração: Sadallo Andere e Washington Soarez

Atualizado em 24/10/2016.

Quando escrevi este texto, o fiz por puro amor! Foi esse o sentimento que esse livro me despertou. Jamais imaginei que ele seria finalista do Prêmio Jabuti 2016 na categoria poesia. Uma alegria enorme preencheu meu coração quando soube disso, pois significa que estou fazendo o bem a alguém, ao indicar os livros que indico. Por aqui, sigo torcendo para que eu precise (re) atualizar este texto cheio de amor!