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JAPÃO | Akira Kurosawa: o mestre do cinema japonês

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Dando continuidade ao nosso Especial “ATIVAR na Copa”, vamos falar daquele que foi um dos grandes cineastas de sua geração e que acabou influenciando muitos diretores do cinema mundial. O escolhido para representar o Japão, primeiro país a se classificar para o mundial da FIFA, é o genial Akira Kurosawa.

Akira Kurosawa fazendo o que mais gostava.
Kurosawa fazendo o que mais gostava. Foto: Reprodução

O grande cineasta Akira Kurosawa tinha alma de artista. Um dos mais importantes diretores do século 20, Akira conseguiu levar a cultura japonesa ao mundo com filmes que são considerados obras de grande valor. Através de sua capacidade de unir sensibilidade e dramaticidade acabou servindo de inspiração para grandes diretores ocidentais como Spielberg, Coppola, Bertolucci, e outros de diversas gerações. Algo bastante representativo para a história do cinema mundial.

Nascido em Omori, Tóquio, em 1910, o filho mais novo da família Kurosawa dirigiu 30 filmes ao longo de seus 43 anos de carreira. O pai, Isamu Kurosawa era um grande entusiasta da cultura ocidental e levava os filhos com frequência ao cinema. Além do incentivo do pai, Akira também teve a influência de um irmão mais velho, que trabalhava como narrador de filmes. Esse mesmo irmão suicidou-se aos 22 anos com um tiro porque não conseguia mais trabalho. E apesar da tragédia em família, Akira decidiu seguir seus passos e ingressou na carreira cinematográfica, inicialmente, como assistente de direção em 1936. Depois disso, não parou mais. De 1943 a 1965, dirigiu vinte e quatro filmes. E se hoje a cultura oriental no cinema é tão bem difundida entre os ocidentais, grande parte do mérito vai para Kurosawa.

Há quem considere Akira Kurosawa um diretor supervalorizado e que sua estética cinematográfica é ocidental demais. No Japão ele não é tão cultuado se comparado com seus conterrâneos Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Mikio Naruse e Hayao Miyazaki. Por lá ele é considerado apenas um diretor de segunda categoria. Esse desprezo de seu próprio povo o deixava extremamente triste. Certa vez, deprimido por não conseguir dinheiro para financiar um filme, tentou suicídio cortando o pulso repetidas vezes. Por sorte, nenhum corte foi profundo o suficiente e ele acabou se recuperando.

Akira Kurosawa quando mais jovem.
Akira quando mais jovem. Foto: Reprodução

No enredo de seus filmes o gênero mais trabalhado é o dramático. Neles percebemos a exposição de muitas questões filosóficas tais como honra, amizade e amor, por exemplo, difundidas pela cultura ocidental e que entram em contraste com a rigidez da cultura japonesa. Talvez esteja aí o sentido da rejeição sofrida por ele em seu país de origem. Os tempos eram tão difíceis que ele precisou inclusive dirigir comerciais de TV para conseguir dinheiro para poder financiar seus filmes, além de ter recebido apoio financeiro de jovens diretores na época como George Lucas e Martin Scorcese, outros grandes admiradores de seu trabalho.

O primeiro filme dirigido por ele foi Sugata Sanshiro (A Saga do Judô – 1943), sobre as descobertas de Sanshiro nas artes marciais e no amor. Sete anos depois veio sua ascensão com Rashomon (1950), com o qual venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Festival de Veneza, fatos que impulsionaram e muito a carreira do jovem cineasta. Depois vieram O Idiota (1951), Viver (1952), Os Sete Samurais (1954), Trono Manchado de Sangue (1957), Yojimbo (1961), Dersu Uzala (1975), Ran (1985), Sonhos (1990), Rapsódia em Agosto (1991), apenas para citar algumas das suas grandes obras. Com Dersu Uzala, também levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976.

Cena do filme Yojimbo, de Akira Kurosawa.
Cena do filme “Yojimbo”. Foto: Reprodução
Cena do filme Cão Danado, de Akira Kurosawa.
O personagem Murukami no filme “Cão Danado”. Foto: Reprodução
Cena do filme Dersu Uzala, de Akira Kurosawa.
Cena do filme “Dersu Uzala”. Foto: Reprodução

Akira era um diretor perfeccionista e que sofria imensamente durante as filmagens de seus filmes, chegando a ter esgotamento nervoso em diversos momentos. Segundo Teruyo Nogami, que trabalhou com Akira durante praticamente toda carreira, “ele estudava as plantas das filmagens como um general medita sobre a batalha a travar no dia seguinte”. E lamenta: “Durante as filmagens de Dersu Uzala, Kurosawa estava esgotado física e mentalmente. Até hoje me arrependo por não ter entendido o sofrimento pelo qual ele passava”. Nogami escreveu em homenagem ao diretor um livro intitulado À Espera do Tempo – Filmando com Kurosawa (Editora Cosac-Naify/Mostra), onde conta sobre os bastidores das filmagens em que trabalhou com ele.

Sua relevância para o cinema foi tão grande que muitos de seus filmes ganharam remakes, como Os Sete Samurais e Yojimbo, refilmados nos EUA. Em nome de todo o trabalho já realizado pelo cineasta, ele foi homenageado com um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra em 1990, pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. Algumas das outras premiações recebidas por ele foram Leão de Prata em Veneza, por Rashomon; Palma de Ouro no Festival de Cannes, por Kagemusha, a Sombra do Samurai (1980) e Ran; e um BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, por Ran.

Cena do filme Ran, de Akira Kurosawa.
O colorido de “Ran”. Foto: Reprodução

Depois de 43 anos de uma carreira inicialmente pautada pelas dificuldades e rejeição e posteriormente tendo recebido o merecido reconhecimento mundial, Akira Kurosawa morreu aos 88 anos de idade, vítima de um derrame. Uma irreparável perda para o mundo mas que deixou uma grande e bela herança para o cinema. Para quem quiser conhecer um pouco da obra de Kurosawa, recomendo os filmes: Os Sete Samurais, Ran e Sonhos.

* Agradecimento especial a Micro & Soft Informática pelo apoio na realização deste projeto especial.