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Cinquenta Tons de Possibilidades

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A primeira vez que ouvi falar sobre a trilogia Cinquenta Tons (Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade) foi em um papo despretensioso sobre a famosa (não mais, né) marca de lingerie e cosméticos Christian Gray. Não me recordava em nada dessa marca e nem me interessei pelos livros. Na mesma semana, vi um casal lendo Cinquenta Tons de Cinza juntos e eles pareciam realmente estar curtindo aquele momento tão cúmplice, onde ele se chateava quando ela virava a página antes dele terminar de ler. Pois bem, minha curiosidade foi despertada e, na primeira oportunidade, comprei o tão falado livro da gravata cinza. Depois acabei lendo a trilogia inteira.

Cinquenta Tons de Cinza - Fan film Fifty Shades of Grey - We Aim to Please.
Cena do fan film “Fifty Shades of Grey – We Aim to Please”. Foto: Reprodução

A trilogia Cinquenta Tons é o que podemos chamar de “sucesso de oportunidade”. Ao menos no meu entender, os livros de E. L. James causaram todo esse furor por dois motivos: sexo vende e as mulheres estão, digamos, mais “soltinhas”. Sim, ainda existe uma certa hipocrisia e o falso moralismo, mas a mulherada está mais à vontade para explorar o assunto. E não estou falando da garotada liberal da atualidade, eu falo mesmo é das donas de casa que têm vergonha de sair do convencional. Por isso, ler umas sacanagens no ônibus enquanto volta do trabalho caiu no gosto do público feminino.

Antes de discorrer mais sobre o assunto é necessário apresentar um breve resumo sobre a trilogia. Para quem ainda não leu, os três livros resumem-se basicamente a isso: garota de beleza comum e sem grandes atributos físicos conhece homem rico, bonito, sedutor e se apaixona. Ele começa a ter fantasias pervertidas com a mulher e faz tudo para envolvê-la. Eles ficam juntos, ele apresenta a ela umas técnicas de BDSM, rolam uns tapas na bunda, alguns palavrões de leve e algumas discussões. As brigas são quase todas resolvidas na base do sexo e eles tem problemas para discutir a relação, ou seja, não manjam de uma boa DR. Ele quer dominá-la e ela luta contra o desejo de ser dominada. Ela vive em conflito e conversa com uma tal Deusa Interior e seu Subconsciente. Ele tem um passado obscuro e certamente problemas mentais, mas ela acha que o seu amor pode salvá-lo. Além de frases repetitivas como “Puta merda”, “Pare de morder o lábio”, “Não revire os olhos para mim”, e expressões “Sexo baunilha”, “Minha deusa interior” e “Até mais, baby!”.

Cinquenta Tons de Cinza - Ensaio fotográfico com temática BDSM (Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo).
Ensaio fotográfico com temática BDSM. Foto: Reprodução

A alta cúpula da literatura (a.k.a críticos de Twitter e Facebook) bombardeou as leitoras da trilogia com apelidos do tipo: encalhadas, mal-comidas, ex-leitoras de Crepúsculo, etc. E as maiores críticas vinham por incrível que pareça, das próprias mulheres. E sabe o que eu acho disso? Que essas mesmas mulheres provavelmente liam escondidas para ninguém ver.

Por que você que leu a trilogia ou algum dos Cinquenta Tons não precisa ter vergonha? Porque foi, em muito tempo, uma das poucas brechas que eu vi para que muitas mulheres pudessem pelo menos conversar sobre sexo em público, sem se sentirem umas pervertidas. Essa é a verdade, 50 tons permitiu um nível de perversão saudável que às vezes falta nas relações pudicas, que as pessoas insistem em levar em nome do falso moralismo.

O conteúdo é pobre, a autora escreve mal e os personagens principais são inspirados em Crepúsculo. Tá e daí? Eu li e minha vida não mudou em nada. Mas certeza que muita gente ficou inspirada e deu uma apimentada na relação. Isso é legal! Pelo menos, eu acho.

Cinquenta Tons de Cinza - Capa dos livros da trilogia.
Capa dos livros da trilogia “Cinquenta Tons”.

A única questão para ser levada a sério, tendo em vista que percebi muita mulher desejando um cara como ele, é: Christian Grey não é um homem para se ter fantasias românticas. Homens com personalidades similares a este personagem são doentes e precisam de tratamento psiquiátrico. Por favor, não ache bonito que um cara persiga você, que se intrometa nas suas relações familiares e de amizade e muito menos que tente dominar você de forma que não tenha mais vida própria. Sério, isso não é saudável.


Enfim, a trilogia Cinquenta Tons não é nenhuma contribuição para a literatura mundial. Nem livros para se ter guardados para reler. Mas no fundo é uma boa desculpa pra falar sem receio sobre sexo.

A seguir, sugestões para quem deseja aprimorar de fato o gosto por uma leitura mais caliente:

Lolita – Vladimir Nabokov
O Amante de Lady Chatterley – D. H. Lawrence
Delta de Vênus: Histórias Eróticas – Anaïs Nin
A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro

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Gabriela Silva, mais conhecida como Petit Gabi é uma paraense que já morou em algumas cidades, mas que encontrou seu porto seguro em São Paulo. Uma redatora que adotou a escrita como hobby. Amante de livros, gatos, Chico Buarque…

  • Naty Beraldo

    A-do-re-i !! Nem terminei de ler a trilogia, e ja me sinto mais apaixonada pelo seu texto que por ela!!
    Sddes Lindinha!!

    • Naty eu li todos e confesso que chegou em um ponto que não aguentava mais. rs Mas também me diverti em diversos momentos. Beijão!

  • Fabiola

    Adorei o recado! Acho que a primeira pessoa que leu o livro para depois fazer a critica (não só o resumo do BDSM) e fez uma analise “crua” da essência e da fama do livro.

    • Pois é, Fabíola! Esse foi o problema com relação a algumas críticas, na minha opinião. As pessoas só liam o resumo e metiam a boca. Como eu disse, não é nenhuma obra prima, mas tem lá suas vantagens.

  • Juh

    Olha, eu nao li nenhum dos livros, porém li alguns trechos e não me apeteceu em ir ler por completo…sou muito mais ler o que você escreve Petit.beeeeeeeijos. Cada dia melhor!!!

    • Oi Juh! Acho que se não foi pega de primeira, não vale a pena insistir na leitura. Pode ser que acabe ficando chato… Mas eu me diverti eu alguns momentos. Brigada, viu! Beijãooo!

  • Eu não li ainda, mas pretendo em breve. Acho que a mulherada anda mais “soltinha” sim e pelo que pude perceber, tinham vontade de mostrar o que estavam lendo!!! Isso abriu a oportunidade de se falar sobre sexo e mais, falar sobre suas fantasias. E daí se foi por conta do livro estar na moda? Valeu pelo debate e mais ainda pelo que você comentou “…muita gente ficou inspirada e deu uma apimentada na relação.” 🙂

    • Ca, sei que você adora um bom livro e pode ser que acabe se entretendo com a leitura 50 tons (apesar de ser meio fraquinho em termos de literatura). E com relação ao tema, com certeza a discussão levantada foi válida!

  • Eu li o primeiro livro e não vi nada de interessante, achei uma literatura pobre, em relação a falar sobre sexo abertamente, acredito sinceramente que o livro não contribuiu tanto assim, hoje exitem grupos, blogs e outras formas virtuais ou não de se falar sobre sexo abertamente, a forma como o sexo é abordado no livro é do tão ruim quanto os diálogos com o subconsciente da personagem principal… Enfim, pra mim é surreal nos dias de hoje, alguém com 21 anos tão tapada em relação ao mínimo de conhecimento sobre seu corpo e sexo. Pra mim não rendeu.

    • Então, eu acho que esses grupos de discussão, blogs e etc acabam não chegando ao público alcançado por 50 tons. Muitas mulheres não acessam a internet como a gente, sendo que dessa forma elas puderam abrir um pouco a cabeça. A literatura é pobrinha mesmo e as vezes até me irritava o excesso de repetição. hahaha Mas é isso, acho que você não era bem o público a ser atingido pelo livro.

  • mariana

    ainda nao li nenhum dos livros, porem os comentarios que ouço é que não contribiu para educação sexual, porem mostra para as mulheres que nao acreditam que existem homens assim. E principalmente tem deixado as mulheres um pouco mais libertas para falar do assunto!!!

    • Petit Gabi

      Mariana, os livros são de uma literatura pobre, mas eu acredito que sim, contribuíram para algumas mulheres ficarem mais soltinhas com relação ao sexo. Ou pelo menos tiveram vontade de experimentar umas coisinhas mais picantes.