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Daniel Galera já não é mais um jovem escritor

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Leitor desde muito cedo, Galera se aventurava a ler os livros da biblioteca de seu pai, mas como a maioria dos brasileiros, suas primeiras leituras foram as revistinhas da Turma da Mônica.

O escritor Daniel Galera em foto de Raul Krebs
Daniel Galera é escritor, tradutor, ensaísta e editor. Foto: Raul Krebs/Reprodução

Daniel Galera nasceu em São Paulo, mas toda sua família é gaúcha, e foi em Porto Alegre onde ele cresceu. Galera também morou, por um tempo, em São Paulo e Santa Catarina, mas acabou retornando para Porto Alegre onde vive até hoje.

Em sua adolescência, buscava uma maneira de se expressar e aventurou-se em diversas coisas, como: desenhar, pintar e tocar alguns instrumentos musicais. Mesmo identificando-se com essas atividades, nada parecia completá-lo. Foi quando aos 16 anos, finalmente, ele encontrou na escrita a forma de expressão que tanto buscava. Talvez, tenha sido à escrita que o encontrou. Pouco tempo depois, Galera começou a frequentar uma oficina literária para aperfeiçoar sua escrita, há hoje famosa em todo país, Oficina Literária Luiz Antonio de Assis Brasil. Depois disso Daniel ingressou no curso publicidade na UFRGS, mas logo no primeiro período do curso viu que não queria, de forma alguma, ser um publicitário e decidiu dedicar-se única e exclusivamente a literatura (em seu primeiro livro, “Dentes Guardados”, num dos contos, ele deixa bem claro o que pensa em relação à publicidade).

Galera foi um dos pioneiros na ascensão de textos da internet para as grandes editoras. Começou a escrever contos, e, então, passou a publicá-los em portais na internet entre 1996 e 2001. Porém, Daniel queria mais. Ele não se contentou em escrever apenas na internet, pois sempre teve o livro como objetivo principal. Só que em vez de mandar seu original para as editoras, ele juntou-se aos amigos Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla para criar sua própria editora. Surge então o selo independente Livros do Mal.

Daniel e seus amigos tinham como objetivo publicar apenas novos escritores, em especial os que tinham trabalhos expostas na internet. Um dos livros de lançamento da editora foi o seu Dentes Guardados, em 2001, e já em 2003 ele publicou seu segundo livro, o romance, “Até o Dia em que o Cão Morreu”, relançado pela Companhia das Letras em 2007. No mesmo ano, o romance foi adaptado para o cinema, e ganhou o título de Cão sem Dono. O filme foi dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, e protagonizado por Júlio Andrade e Tainá Müller.

Cartaz do filme Cão sem Dono
Cartaz do filme Cão sem Dono, adaptado do romance “Até o Dia em que o Cão Morreu”. Foto: Reprodução

Ainda em 2006 ele lançou “Mãos de Cavalo”, que foi de longe o livro que teve mais sucesso até então, sendo bastante elogiado pelos críticos de todo o país. Em 2008, aos 29 anos, Galera lançou o livro “Cordilheira”, que lhe renderia dois prêmios literários de bastante expressão em âmbito nacional. O primeiro lugar no prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, e o terceiro lugar no prêmio Jabuti. Cordilheira é ambientado em Buenos Aires, e foi o livro de lançamento do projeto Amores Expressos da Companhia das Letras.

Dois anos depois do grande sucesso que foi o livro Cordilheira, Daniel Galera em parceira com o desenhista Rafael Coutinho lançou a graphic novel “Cachalote”, por um dos selos da Companhia das Letras, Quadrinhos na Companhia (logo abaixo, você pode conferir o Teaser animado).

No ano passado, Daniel foi um dos escolhidos pela revista britânica Granta como um dos 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos. O projeto da Granta foi anunciado em 2011, quando foram abertas as inscrições para escritores nascidos a partir de 1972, e que tivessem publicado ao menos uma obra ficcional em âmbito nacional.

Ainda em 2012, Galera lançou o que, em minha opinião, é de longe seu melhor livro, o fantástico Barba Ensopada de Sangue. Aqui, ele narra a história de um professor de educação física que vai morar numa cidade litorânea de Santa Catarina, Garopaba, com intuito de descobrir a verdade sobre a morte do seu avô que se passara décadas antes. Daniel morou na mesma Garopaba, e segundo ele, quando decidiu morar lá, não tinha em mente escrever nenhum livro. Quis apenas passar algum tempo em outra cidade, mas sabia que alguma ideia poderia surgir. Enquanto morava em Garopaba, Daniel estava no processo de criação da graphic novel Cachalote, e foi nesse período que surgiu a ideia para o Barba Ensopada de Sangue. Então, ele passou a fazer pesquisas e anotações, mas só começou a escrever o livro de fato quando saiu de Garopaba.

Daniel Galera é frequentemente questionado se suas obras não seriam autobiográficas. Durante a famosa Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2013), num papo com o escritor francês Jérôme Ferrari, com mediação de Noemi Jaffe, Galera deixa bem claro ao dizer: Nunca vivi as tragédias dos meus personagens.

Não acho que as obras do Daniel sejam autobiográficas. O que acontece hoje em dia é que os leitores leem os autores contemporâneos já, de alguma forma, querendo saber/adivinhar o que é ou não realidade. E se aquilo fez ou faz parte da vida do autor. Acho que a literatura não deveria ser vista dessa maneira, você até pode querer se informar sobre a vida do autor, mas enquanto estivesse lendo seus livros, pouco deveria importar se aquilo é ou não realidade.

Capa do livro “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera
Capa do livro “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera. Foto: Reprodução

Por fim, e não menos importante, Galera já traduziu alguns livros da nova geração de autores de língua inglesa, e é ele quem está traduzindo os livros do David Foster Wallace. Daniel têm seus livros publicados na Itália, Argentina, Portugal, França, e recentemente, o Barba Ensopada de Sangue foi lançado na Alemanha com o título de “Flut” pela editora Suhrkamp. Ele também é colunista do jornal “O Globo”, seus textos são publicados as segundas no Segundo Caderno.

Daniel Galera já não é mais um jovem escritor, e sim uma realidade da literatura contemporânea nacional. Já tive a oportunidade de conhecê-lo num evento, e posso dizer que é uma pessoa incrível, de um humor sarcástico, mas que ao mesmo tempo arranca sorrisos da plateia que o assiste.

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Elvis SouzaElvis Souza é recifense, e futuro formando em Letras. Leitor bastante ávido desde muito cedo, amante de livros, música, filmes e pizza. Gosta de andar a pé, e é rato de museus e eventos literários. Vê a escrita como uma grande válvula de escape. Sua inspiração pra escrever pode vir de um simples suco de laranja e, ao mesmo tempo, de um atentado terrorista do outro lado do mundo. @elvis_marc

  • Laila Guedes

    Bacana Elvis, não conhecia o trabalho do Daniel Galera. Valeu pela dica!!! E seja super Bem Vindo. Abs!

    • Ah, obrigado! É bom fazer parte de um time com tanta gente massa. Sim, o Daniel é mesmo demais. Tenho todos os livros dele, e depois que escrevi o texto me deu vontade de reler todos, já comecei. É fantástico!