Início VISÃO Macabéa, uma estrela sem céu e sem palco

Macabéa, uma estrela sem céu e sem palco

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Disseram-me uma vez que a água era incolor, inodora e insípida. No meu íntimo, discordei completamente daquilo tudo. Que injusto! O líquido que nos dá a vida sendo “desvalorizado” e ninguém movendo uma palha para defendê-lo. Fiquei verdadeiramente triste.

Beba Água
Sinta o GOSTO, o CHEIRO, e a COR da água. Foto: Reprodução

Uns dias depois, percebi que as coisas eram assim, que a vida era assim, que as pessoas não gostam de defender o que parece garantido, pessoas gostam de si mesmas e pouco se importam se a água está sendo chamada de inodora injustamente, pois todos conseguem sentir aquele cheiro de frescor que só a água possui. Absurdo maior chama-la de incolor, que anta não conseguiria identificar aquele transparente vivo que só a água possui? Quanto ao chamar a água de insipida, bem, este é o maior absurdo que a humanidade já cometeu depois dos etnocídios ou genocídios. Depois de uma corrida de três quilômetros em um calçadão de alguma das maravilhosas praias do Brasil com um incessante sol de meio dia, duvido que você não sinta o gosto da água. Como percebi o egoísmo de todos meus colegas de classe (pois é na quarta série, ou menos, que eles ensinam essa mentira para as crianças), decidi ser mais egoísta ainda e guardar o gosto, o cheiro, e a cor da água só para mim. E assim foi, até hoje.

Depois de toda essa divagação acerca de um de meus ídolos, a água, ficou inevitável não compará-la com Macabéa, uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa. Pra quem ainda não se tocou, Macabéa é a personagem principal do último livro da grande escritora Clarice Lispector, A Hora da Estrela.

Clarice Lispector
Clarice Lispector em meados dos anos 60. © Editora Abril

A obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. M., tentando criar a história de Macabéa. É pelos olhos do narrador e através de seu domínio da palavra que a existência e a essência são expostas como interrogações. Tal presença masculina retrata um universo de fragmentos, onde o ser humano não é respeitado, mas desacreditado nessa reconstrução de uma realidade mutilada.

Macabéa é descrita como anti-heroína pobre, feia e burra. Para mim, ela é como a água. Não é porque a inteligência dela não é visível, que ela não é inteligente, o mesmo com a beleza. Será mesmo que ela não é inteligente em não ser inteligente? Toda a nossa existência não seria em busca de um conforto material ou emocional, e como ela não tinha nenhuma possibilidade de ter tudo isso decidiu não perceber que não tinha, inconscientemente. Parece uma coisa bem inteligente a se fazer pra mim. Macabéa, a protagonista, é uma invenção do narrador com a qual se identifica e com ela morre. A personagem é criada de forma onisciente (tudo sabe) e onipresente (tudo pode). Faz da vida dela um aprendizado da morte. A morte foi a hora de estrela.

Livro A Hora da EstrelaInformações Técnicas

Título Original: A Hora da Estrela
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Lançamento: 1977
Gênero: Romance

Nº de Páginas: 88
Formato: 14 x 21 cm
Acabamento: Brochura

Este clássico ganhou nova capa, numa homenagem da Rocco à grande dama da literatura brasileira.

Site da Editora: www.rocco.com.br

Em, A Hora da Estrela, Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor à espera da morte; ela, uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, como Clarice.

A despedida de Clarice é uma obra instigante e inovadora. Como diz o personagem Rodrigo, “estou escrevendo na hora mesma em que sou lido”. É Clarice contando uma história e, ao mesmo tempo, revelando ao leitor seu processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte.

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Isabel NobreIsabel Nobre é uma aspirante a jornalista, patriota, que sonha em fazer do país um lugar melhor. No seu coração existe um amor incondicional para com os livros, principalmente por livros velhos, gosta de ler com o livro se desmanchando em suas mãos. Respeita, acima de tudo, as diferenças, ama os animais, e, em quase todos os momentos, ama a vida. @isabelnobre_

  • Laila Guedes

    Sou fã da Clarice!