Início VISÃO Markus Zusak e a trilogia dos irmãos Wolfe

Markus Zusak e a trilogia dos irmãos Wolfe

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Não se preocupe, meu irmão. Não preciso que você diga à Sal que não sou um fracassado. – Ainda estávamos separados pela porta de tela. – Também não preciso que você diga isso a mim. Eu sei o que sou. Sei o que vejo. Talvez, um dia, eu lhe fale um pouco mais de mim, mas, por enquanto, acho que teremos que esperar para ver o que acontece. – Trecho do livro “A Garota Que Eu Quero”.

O escritor australiano Markus Zusak, autor do best-seller A Menina que Roubava Livros. Foto: Bronwyn Rennix/Divulgação
O escritor australiano Markus Zusak. Foto: Divulgação

Foi por acaso que descobri a magnífica e tocante trilogia dos irmãos Wolfe, escrita pelo australiano Markus Zusak, autor do best-seller “A Menina que Roubava Livros”. Sou um completo viciado em livros, e constantemente estou divagando atrás de promoções para ampliar minha amada coleção. Foi assim que encontrei os dois primeiros volumes da trilogia: “O Azarão” e “Bom de Briga”. Li o primeiro como se bebe água, – rápido, degustando algo sem gosto, mas, que dá um imensurável prazer. E não é que matei minha sede! Tinha em mente ler o próximo em seguida, mas fui colocando outros na frente e deixando Bom de Briga pra depois. E depois… Emprestei-o. Meses depois quando meu amigo o devolveu, me deu de presente o terceiro livro, “A Garota Que Eu Quero”. Como já não lembrava muita coisa do primeiro volume, o reli, e li os outros dois na sequência. Comecei numa sexta-feira à noite, varei a madrugada, e só parei quando a luz do sol atravessou as brechas das telas úmidas e invadiu meu quarto. No domingo, quando o sol desaparecera atrás dos morros, já havia lido a sensacional trilogia do Markus Zusak.

Os livros contam a história de Cameron Wolfe e sua família, que são seus três irmãos: Steve, Sarah e Ruben. E claro, seus pais, o Sr. e a Sra. Wolfe. Cam tem 15 anos e é o caçula. E como gosto de falar, o melhor dos Wolfes.

Lateral do livro O Azarão, de Markus Zusak.
Lateral do livro “O Azarão”. Foto: Blog House of Chick/Reprodução

Em O Azarão (assim como nos outros), a história é narrada pelo Cameron, que é um garoto com conflitos muito comuns em pessoas da sua idade. Cam e Rube, seu irmão do meio e também único amigo, vivem a aprontar suas sacanagens e é assim que o livro começa, com os dois armando para assaltar o dentista. Eles passam quase todo o tempo andando pelas ruas do bairro onde moram fazendo besteiras de fato. Quando não estão assaltando dentistas ou roubando placas de trânsito, os dois travam emocionantes duelos de boxe (o que eles chamam, de “Um Soco”) no quintal de casa, ao olhar de alguns amigos do Rube e aos latidos do Miffy, o cachorrinho do vizinho.

Certo dia, Cameron decide trabalhar com seu pai, que é encanador e faz trabalhos pelas casas das redondezas. E será numa dessas casas que ele conhecerá Rebecca Conlon, seu primeiro amor de verdade. Pois até então as únicas mulheres que ele amava eram as modelos de revistas. A partir daí, mesmo sabendo que é um azarão fará de tudo para conseguir conquistá-la e provar que pode ser um vencedor.

Lateral do livro Bom de Briga, de Markus Zusak.
Lateral do livro “Bom de Briga”. Foto: Blog House of Chick/Reprodução

Em Bom de Briga, Cam e Rube estão aparentemente mais maduros. Mas ainda assim continuam fazendo coisas idiotas como: apostar todo o dinheiro em corrida de cães e perambular envergonhados pelas ruas com o Miffy, o ridículo Lulu da Pomerânia do vizinho.

A vida para os Wolfes não está nada fácil. O Sr. Wolfe está desempregado e recusa-se a pegar o seguro desemprego, pois pra ele isso é o fim da vida para um homem. Essa atitude faz com que o irmão mais velho de Cam, Steve, decida sair de casa. Com isso todas as despesas ficam sobre as costas da Sra. Wolfe, que se mata de trabalhar como faxineira, e sobre Sarah, que depois que foi traída e largada pelo namorado parece não acreditar mais no amor.

As pessoas começam a falar da família Wolfe. As coisas declinam ainda mais, e mesmo o pai engolindo o orgulho e pegando o seguro desemprego as coisas não melhoram, pois ele não consegue arrumar emprego. Cam e Rube já não aguentam ver toda aquela situação, e mais do que nunca estão à procura de um propósito na vida. É quando acabam aceitando a proposta de um agenciador de lutas de boxe, e tornam-se pugilistas. Rube é mais talentoso, e um vencedor. Por outro lado, Cam continua com seus conflitos e devaneios internos, ele é apenas esforçado. Será que os inseparáveis irmãos Wolfe conseguirão encontrar as respostas que procuram?

Banner de divulgação do livro de Markus Zusak, Editora Intrínseca.
Banner de divulgação. © Editora Intrínseca

Em A Garota Que Eu Quero, o foco já não é mais os irmãos Wolfe, é do Cameron todas as nossas atenções. As coisas estão bem melhores para a família Wolfe. O pai voltou a trabalhar e sustentar sua família. A Sra. Wolfe já não se mata de trabalhar, e passa mais tempo cuidando da casa. À Sarah continua trabalhando muito, porém parou com os porres e de sair com um cara diferente toda noite. O Steve ainda está morando com sua namorada Sal. Rube já não é mais um completo perdedor, e toda semana desfila com uma garota diferente. E o Cam? Bom, ele ainda continua sendo um azarão.

Com o Rube ocupado com suas namoradas, o Cam está mais do que nunca sozinho. E com tanto tempo livre ele vive andando pelas ruas, passeia envergonhado com o Miffy, vai à casa do Steve jogar conversa fora. E toda semana fica em frente à casa de uma garota que lhe deu um fora, e provavelmente, nem se lembra mais que existe um garoto chamado Cameron Wolfe. Esse comportamento acaba preocupando o Rube e sua nova namorada, à Octavia.

Os inseparáveis irmãos Wolfe sempre foram leais um ao outro, mas essa lealdade acaba sendo posta à prova quando Cam se apaixona por Octavia. Ele não concorda com as atitudes do irmão, que trata as garotas como objetos de descarte. Cam daria tudo para se apaixonar, ter uma namorada, amá-la e tratá-la bem. Mas porque uma garota se interessaria por ele? Mais uma vez, ele irá tentar provar que é capaz de ser um vencedor. Tudo que ele quer é uma oportunidade, mas como ele mesmo diz: “Nada vem fácil para um ser humano como eu. Isto não é uma queixa. É só uma verdade”. Cameron sabe que as coisas não serão fáceis, mas ele tem fome. Fome de ser alguma coisa na vida.

Nos três livros depois de cada capítulo há um pequeno texto. No primeiro livro, os textos traduzem os sonhos do Cameron. É como se ele refizesse em sua mente os caminhos traçados por ele, porém um tanto quanto fantasiados. No segundo, os textos são as conversas que Cam e Rube têm durante a noite antes de dormir. No terceiro, são os pensamentos do Cam transcritos por ele. Esses pensamentos mostram todos os seus devaneios. Nessas pequenas histórias ele está sempre acompanhado de um cão, que o guia pela obscura estrada da vida.

As CAPAS de cada livro da trilogia:

A capa dos livros da trilogia Irmãos Wolfe, de Markus Zusak.
A capa dos livros da trilogia “Irmãos Wolfe”.

Os dois primeiros livros foram publicados pela editora Bertrand Brasil, com tradução de Ana Resende. Essas edições são primorosas. O layout das capas (que foram feitas por Rafael Nobre / Babilonia Cultura Editorial) transcrevem exatamente o conteúdo dos livros.

Já o terceiro livro foi publicado pela editora Intrínseca, com tradução de Vera Ribeiro. Eu chamo essa edição de “a tragédia”. Para mim foi uma decepção. Não que o layout da capa seja feio. Mas, em minha opinião, a capa não tem muito haver com a história. Embora isso não seja de grande relevância, o fato é que a coleção ficou esquisitíssima. Mas, fazer o que se a Intrínseca comprou os direitos de publicação do último livro? Uma pena. Mas como há tempestades que vem para o bem, o livro no geral é sensacional.