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Minhas duas meninas

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Se me dissessem: “Sara, lê esse livro aqui! É sobre barriga de aluguel, maternidade…”, eu recusaria categoricamente. Tenho certa preguiça dessa fantasia que criam em torno da maternidade. Sou ré confessa! Mas quando ganhei o livro Minhas duas meninas, eu estava no meio da leitura de um livro cujo prefácio foi escrito pela Teté Ribeiro. Estava bem feliz por isso!

Banner de lançamento do livro Minhas duas meninas, de Teté Ribeiro.

O amigo que me deu o livro Minhas duas meninas, falou do que se tratava e mesmo assim continuei empolgada. Afinal, era um livro da Teté Ribeiro (cada vez que escrevo o nome dela aqui, tenho vontade de fazer coração com as mãos).

Esse é o terceiro livro dela. Nele, Teté Ribeiro narra sua experiência com o serviço (sim! Em países nos quais esse procedimento é legal, ele é considerado um serviço) de barriga de aluguel. No Brasil, é um serviço proibido. Apenas é permitido o empréstimo do útero, com inúmeras restrições.

Após dez anos tentando engravidar e adotar uma criança, a autora e seu marido decidem contratar uma barriga de aluguel na Índia. Lá, ela explica no livro, esse tipo de serviço é legalizado e ao contrário do que eu imaginava e muitas pessoas imaginam, não se trata de exploração de mulheres durante o período em que elas podem parir. Existem restrições, limites e perfis adequados para se prestar esse tipo de serviço.

É muito interessante a forma como ela narra toda a experiência, intercalando informações históricas e geográficas sobre um país que foi colonizado pelos ingleses. Aliás, no capítulo em que ela fala rapidamente sobre tal colonização, ela fez com que eu questionasse se realmente uma colonização inglesa seria tão melhor que uma portuguesa.

É um relato muito aproximador.

A descrição que Teté Ribeiro faz sobre a ala pediátrica é uma mistura que passa pela Avenida Paulista, pelo Mickey, Sônia Braga e termina em um unicórnio bebê que se parece com um Gremelin colorido. Devo ter lido esse parágrafo no mínimo três vezes, até conseguir criar um esboço para essa descrição, na minha fundida cabeça.

Dois outros aspectos muito importantes desse livro, são o bom humor e a autenticidade.

Antes de decidir pela barriga de aluguel, Teté Ribeiro fez várias tentativas de fertilização in vitro, atrelando ansiedade e hormônios injetados, que causaram-na algumas confusões.

Uma delas, em um cinema. Imagine uma sessão de cinema lotada, filme de super herói, no meio de uma tarde de sábado. Agora, imagine que você precisou se sentar longe da sua companhia, e ao seu lado, estava uma criança de aproximadamente 10 anos, que não parava de falar no celular, durante a exibição. Pois é!

Se para nós, reles mortais, já seria um tantinho difícil não abordar a criança, para uma mulher que está tentando engravidar há anos, e está tomando uma quantidade imensa de hormônios, é muito pior. Após quatro pedidos educados de silêncio, Teté Ribeiro tirou o telefone das mãos do garoto e o atirou em direção à tela. Quando terminei de ler esse trecho, senti como se EU tivesse feito aquilo! Foi libertador!

Em meio a tantas histórias e emoções, um personagem chamou minha atenção, até mais do que “as duas meninas”: sr. Uday. Durante o período em que a autora e Sérgio (seu esposo) estão na Índia, sr. Uday é o motorista, guia e tradutor deles. A descrição que a autora faz dele é doce e divertida. Me deixou com a impressão, de que ele é no mínimo um parente bem próximo de Ketut Liyer, o guru do filme Comer, rezar e amar. A tranquilidade com a qual ele lidou com situações extremamente estressantes e atordoantes pelas quais os pais passaram, desde o nascimento antecipado das filhas, até o retorno à Índia, é muito acolhedora.

Minhas duas meninas é um livro sobre maternidade e emoções, mas sem pieguismos e clichês. Narra a difícil realidade de ser mãe, desmistifica o famoso “cheirinho de bebê”, divaga sobre as castas indianas, o universo e tudo o mais.

Com seu jeito autêntico e bem humorado, Teté Ribeiro conseguiu me conectar a um mundo no qual não penso em entrar, e fez com que eu me sentisse realmente bem em pensar sobre os ônus e bônus da maternidade. Sem demonizar, nem santificar. Apenas pensar.

O trecho abaixo, trata-se de uma fala tocante do sr. Uday à autora:

O que mais me emociona é que Deus me deu saúde para trabalhar, assim posso servir as pessoas e prover minha família. Minha filha está estudando e vai se tornar alguém na vida, assim vai ter autonomia para ficar em pé com as próprias pernas. Eu e a mãe dela não queremos escolher um marido que a sustente, em vez disso estamos investindo na educação para que ela possa ter um casamento por amor. E eu tenho amigos no mundo inteiro, porque cumpro com minhas responsabilidades. É isso que me dá alegria.

E em um país onde as pessoas levam suas camas para fora, para não morrerem de calor durante o sono, o livro Minhas duas meninas foi “concebido”.

Confesso que me trouxe um pouco mais de leveza.

Capa do livro Minhas duas meninas, de Teté Ribeiro.Ficha Técnica:

Título: Minhas duas meninas
Autor: Teté Ribeiro
Capa: Nik Neves
Editora: Companhia das Letras
Lançamento: 2016
Gênero: Memórias / Diários

Nº de Páginas: 184
Formato: 14 x 21 cm
Acabamento: Brochura
ISBN: 9788535927467
Valor: r$ 39,90
Nota: 😺 😺 😺 😺 😺

Colaboração: Ludymilla Duarte Borges