Início VISÃO O Rei e o Baião – Biografia de Luiz Gonzaga

O Rei e o Baião – Biografia de Luiz Gonzaga

391
Compartilhe

Quando pensamos em um Rei, logo nosso imaginário nos transporta para a Idade Média, onde os reis eram figuras austeras, rodeados de luxo, mordomias e bajulação. Mas quando se pensa em Luiz Gonzaga, projetamos a figura de um cara simples, com uma sanfona na mão e suas roupas tipicas de homem do Sertão. Você deve estar se perguntando, por que um cara com essas características é chamado de Rei?

Xilogravura de Elias Santos
Xilogravura de Elias Santos em homenagem a Luiz Gonzaga.

O Rei e o Baião, livro organizado pelo artista plástico, poeta e compositor paraense Bené Fonteles, exemplifica em detalhes porque esse homem simples tornou-se um Rei. Com apresentação de Gilberto Gil, é um trabalho magnífico de pesquisa sobre a vida e a obra de Luiz Gonzaga, onde foram registrados imagens belíssimas e preciosos textos de viés poético do autor. Também tem ensaios com profunda imersão nas águas da antropologia, da sociologia, da linguística, da musicologia e da mitologia do novo mundo, escorado nas obras de autores como Euclydes da Cunha, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna.

A seguir, uma parte do texto de Severino Francisco do Diário de Pernambuco:

O livro de Bené Fonteles, estabelece a real dimensão de Gonzagão como inventor e não apenas repetidor ou mantenedor da tradição nordestina. Claro que Gilberto Freyre, Ariano Suassuna e Gláuber Rocha já haviam colocado em primeiro plano a cultura nordestina no campo erudito: “Mas o Luiz era um inventor e um inovador no plano da cultura popular”, enfatiza Bené. “Como diz o Antônio Risério, ele é o cara que reinventou o Nordeste”.

Livro - O Rei e o BaiãoInformações Técnicas

Título Original: O Rei e o Baião
Organizador: Bené Fonteles
Editado pela Fundação Athos Bulcão
Lançamento: 2010
Gênero: Biografia

Nº de Páginas: 377
Formato: Grande
Acabamento: Capa Dura

O livro pesa 2 quilos, tem 100 fotos inéditas do artista e foi financiado pelo Ministério da Cultura.

Site da Fundação: www.fundathos.org.br

Bené ficou impressionado com uma das primeiras fotos de Luiz Gonzaga, em que ele aparece vestido com roupa de cangaceiro, acompanhado pelos músicos Catamilho (zabumba) e Zequinha (triângulo), metidos em um traje de gala de vaqueiro como se fossem integrantes de um conjunto norte-americano prontos para se apresentar no antigo Cassino da Urca nos anos 1940. “Era preciso muita coragem para fazer isso naquele tempo. Ele foi proibido de cantar com aquela indumentária nordestina em um programa de rádio de 1940. Gonzagão descolonizou o Brasil, colocou o Nordeste dentro do debate cultural brasileiro. Pela primeira vez, o Sul passou a consumir a música nordestina, todo mundo só queria dançar o baião”.

O livro conta a história de Seu Lua, como era chamado, e destaca a sua relevância na cultura brasileira por meio de um rico diálogo entre textos, fotos e xilogravuras. É a primeira vez que se faz, em livro, um levantamento da iconografia do cantor, de 1940 a 1960, seu período mais fértil. Um ensaio fotográfico de Gustavo Moura revela os personagens e a paisagem agreste. Além disso, Bené encomendou imagens a dois dos mais talentosos gravuristas da arte popular nordestina: José Lourenço e João Pedro de Juazeiro. “Realizei uma montagem entre os ensaios escritos e os visuais. Acho que o Gonzagão ficaria satisfeito em ver o povo dele no livro, sem distinção entre erudito e popular. O livro já inspirou dois documentários sobre Luiz Gonzaga, um de Sérgio Roizenblit e outro de Rosemberg Cariri”.

Luiz Gonzaga e o primeiro trio de forró
Luiz Gonzaga e os músicos Catamilho (zabumba) e Zequinha (triângulo).

O legado de Gonzagão

Bené Fonteles conheceu Luiz Gonzaga graças ao estímulo do seu pai, o cearense José Ribamar, que tinha a discografia completa do Rei do Baião. Em 1971, aos 18 anos, Bené escreveu e montou o espetáculo Luiz Lua com dois objetivos: mostrar a vida e a obra de Gonzagão para as novas gerações e o impacto dele na geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo. Tudo era mostrado em praça pública.

Em 1972, Bené armou-se de coragem e resolveu procurar Luiz Gonzaga, de passagem por Fortaleza. Foi muito bem recebido por Gonzagão, que fez questão de o levar até uma discoteca para que ouvisse o seu último LP. Lá, Bené pôde assistir a um instante único: Gonzagão chorou ao ouvir pela primeira vez Caetano Veloso cantar Asa Branca.

Daí para frente nunca mais perdemos o contato. Ele era muito generoso, tinha mais de 400 afilhados e deu de presente mais de 300 sanfonas. Quando gravei o meu primeiro disco, ele disse que faria uma participação, mas não queria nada postiço. Ele queria fazer um aboio de vaqueiro, pois as gravadoras não permitiam este tipo de canto.

Na pele de Lampião

Naquela época, eu percebia que todo cantor regional, todo cantor estrangeiro tinha uma característica própria. O gaúcho, aquela espora, bombacha, chapelão. O caipira tinha lá o seu chapéu de palha. O carioca tinha a famosa camisa listrada e o chapéu-coco. Os americanos, os cowboys. Quando Pedro Raimundo veio pra cá vestido até os dentes de gaúcho, eu me senti nu. Eu digo: Por que o Nordeste não tem a sua característica? Eu tenho que criar um troço. Só pode ser Lampião. Apanhei por causa de Lampião. Eu digo: Eu vou usar o chapéu de Lampião. Aí escrevi para a mamãe pedindo um chapéu de cangaceiro com toda urgência. No primeiro portador que ela teve, ela mandou o chapéu.

Rapaz, quando eu botei o pé no palco da Rádio Nacional só faltaram me matar de raiva. Como é que você, um mulato formidável, um artista fabuloso, se passa por um negócio desse? Reviver o cangaço, cangaceiros, facínoras, ladrões, saqueadores? Eu disse: Não se trata disso. É outra coisa. Eu agora sou um cangaceiro musical. Aí fique com essa característica.”