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HOLANDA | Vincent van Gogh, o pintor atormentado

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Em mais um dia do nosso Especial “ATIVAR na Copa”, chegou a vez de celebrar a genialidade de um dos maiores artistas do mundo. Em vida, ele vendeu apenas uma pintura – “O Vinhedo Vermelho”, mas hoje ele é reconhecido como um dos grandes mestres do Pós-Impressionismo. Estamos falando do pintor holandês, Vincent van Gogh.

Autorretrato de Vincent van Gogh com chapéu de feltro, pintado em 1887.
Autorretrato de Vincent van Gogh com chapéu de feltro, pintado em 1887. © Domínio Público

Dizem que todo gênio tem em si um pouco de loucura. Às vezes, apenas no sentido figurado, quando demonstra seu talento através de criações à frente do seu tempo, sendo assim considerado maluco. E também existem os loucos de verdade, que são de fato pessoas doentes e atormentadas, mas nem por isso, menos talentosas. Van Gogh era louco, mas também era um gênio e precursor da pintura de vanguarda.

Nascido em 1853, Vincent Willem van Gogh teve uma vida marcada por fracassos, tendo falhado em todos os ditames considerados normais para sua época: não constituiu uma família, não conseguia se sustentar e nem ao menos manter um círculo afável de amizades. Passou fome e frio, viveu em barracos e conheceu de perto a miséria.

Apesar de ser fluente em inglês, francês e alemão, línguas que aprendeu ainda na infância, Vincent deixou os estudos com apenas 16 anos para trabalhar para um comerciante de arte. Posteriormente, decidiu dedicar-se à evangelização. Tentou ingressar no curso de Teologia em Amsterdã, mas foi reprovado. Mesmo assim, não desistiu e fez um curso livre. Durante seis meses atuou como missionário, ajudando a cuidar de doentes incuráveis.

O Vinhedo Vermelho (1888), a única peça vendida por Van Gogh em vida.
O Vinhedo Vermelho (1888), a única peça vendida pelo artista em vida. © Domínio Público
A Noite Estrelada (1889), pintada por Van Gogh, é uma das obras mais conhecidas do artista.
A Noite Estrelada (1889), é uma das obras mais conhecidas do artista. © Domínio Público

Após essa experiência, dividiu seus poucos bens com os pobres e passou a ser sustentado pelo irmão, Theodorus, quatro anos mais novo, com quem mantinha um forte laço afetivo. Durante muitos anos trocou mais de 750 cartas com ele, contando a respeito de seu processo criativo, relacionamentos com os poucos amigos e sua loucura progressiva. As emotivas correspondências foram posteriormente reunidas em um livro em 1914, Cartas a Theo, no Brasil lançada como versão de bolso pela Editora L&PM.

Por sugestão do próprio Theo, Vicent passou a levar a pintura mais a sério. Em Bruxelas, estudou um pouco de anatomia e perspectiva. Em 1885, pintou aquela que é considerada sua primeira grande obra: Os Comedores de Batatas. Com os poucos recursos que tinha, preferia mandar dinheiro ao irmão para comprar materiais de pintura a fazer uma boa refeição.

Introspectivo, sério e quieto, Van Gogh mantinha seu foco voltado para a arte. Gostava de pintar a natureza. Gostava de pintar a noite, no campo, ao ar livre. Muitas vezes, para iluminar o cavalete, as tintas e os pincéis, ele colocava uma fileira de velas sob a aba de seu chapéu. Algumas de suas temáticas eram mais sombrias e escuras, mas depois passou para as tonalidades mais claras. Utilizava também cores fortes e linhas em suas telas e experimentou de pequenas pinceladas a curvas espiraladas.

Os Comedores de Batata (1885), este quadro pertence à primeira fase da pintura de Van Gogh.
Os Comedores de Batata (1885), pertence à primeira fase da pintura do artista. © Domínio Público
O Café à Noite (1888), obra pintada por Van Gogh que retrata o interior do café de la Gare, em Arles.
O Café à Noite (1888), retrata o interior do café de la Gare, em Arles. © Domínio Público
Vista de Arles, Pomar em Flor (1889), pintada por Van Gogh.
Vista de Arles, Pomar em Flor (1889), pintada por Van Gogh. © Domínio Público

Em algumas de suas mudanças, Vincent andou pela Bélgica e pela França, conhecendo nesta última os pintores Toulouse–Lautrec, Edgar Degas e Paul Gauguin. A vida boêmia de Paris não convenceu o artista a ficar e ele acabou se mudando para Arles, no interior da França, para onde convenceu Gauguin a mudar-se com ele. Vincent convidara vários artistas para fundar uma espécie de “colônia dos artistas”, mas apenas Gauguin aceitou. E o que a princípio era uma parceria de trabalho e amizade, acabou culminando em um dos atos mais evidentes na vida de Van Gogh.

Após um desentendimento com Gauguin, conta-se que Vincent cortou a própria orelha com uma navalha. Alguns historiados dizem que a briga decorreu por conta de diferenças estéticas profissionais e de temperamento entre os dois artistas. Já outros o relatam como um caso passional de vingança contra sua amante, Virginie. Diz-se que Van Gogh descobriu que ela estava apaixonada por Gauguin e para se vingar, enviou sua orelha direita dentro de um envelope para a amante.

Por falar em paixões, parece que Van Gogh não tinha muita sorte no amor. Uma das mulheres que não corresponderam suas investidas amorosas, foi a prima Kee Vos-Stricker. Ela era uma jovem viúva que insistia em manter-se fiel ao falecido esposo. Para tentar provar que seu amor era de fato verdadeiro, Vincent queimou a mão em uma chama de vela, mas ainda assim a prima não se comoveu, recusando seu pedido e partindo o coração do pobre pintor. Em outra ocasião, apaixonou-se pela filha de uma vizinha, Margot Begemann. Chegou a pedir a moça em casamento, mas os pais dela não aceitaram, o que fez com que Margot tentasse o suicídio. Também teve um caso com uma prostituta grávida, mas ao descobrir o relacionamento, o pai de Vincent fez com que ele abandonasse a moça.

A Igreja de Auvers (1890), pintada por Van Gogh.
A Igreja de Auvers (1890), pintada por Van Gogh. © Domínio Público

Pouco depois de seu desentendimento com o amigo Gauguin, Van Gogh foi diagnosticado com depressão, tendo se agravado cada dia mais. Enquanto esteve doente, quanto mais se agravava seu quadro, mais ele produzia. Chegou a pintar um quadro por dia antes de sua morte. Em 27 de julho de 1890 ele caminhou até o campo e disparou um tiro em seu peito. Mesmo assim, conseguiu voltar para a pensão que morava e só faleceu dois dias depois, nos braços de Theo. Suas últimas palavras teriam sido: “La tristesse durera toujours” (A tristeza durará para sempre).

Van Gogh foi mais um dos grandes artistas da história que morreu sem reconhecimento algum, sem imaginar que seu trabalho era tão magnífico que encantaria o mundo por gerações. Bom mesmo seria se existisse uma máquina do tempo que o trouxesse de volta para visitar os grandes museus que expõem suas obras. Tenho certeza que assim, sua tristeza certamente não duraria para sempre.

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