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A balada de Adam Henry

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[…] Imparcialidade divina, inteligência diabólica, e ainda é bonita. […]

As características mencionadas acima, são atribuídas à juíza do Tribunal Superior especializada em direito da família, Fiona Maye. Ela é a personagem principal da obra de Ian McEwan, A balada de Adam Henry.

Leia o livro A balada de Adam Henry.

No alto de seus 60 anos e com o casamento desmoronando, Fiona Maye tem que lidar com o caso de Adam Henry (17 anos), que sofre de leucemia e precisa de transfusão de sangue para sobreviver. Teoricamente, basta que o hospital acione os bancos de sangue para que a situação seja resolvida de maneira a beneficiar o paciente – é aí que a respeitada juíza entra em ação -, mas o paciente e seus familiares são testemunhas de Jeová, por isso, ao invés de acionar os bancos de sangue, o hospital aciona a justiça. Uma decisão difícil de ser tomada, né?! Colocar a mesma medida para ciência x religião x livre arbítrio…

Em meio à essa turbulência, por parte do paciente nasce uma relação afetiva com Maye, ele lhe dedica um poema – que dá nome ao livro – e se insinua na vida dela, revelando-se um sujeito culto e inteligente. Apesar de persegui-la insistentemente, ela dá liberdade ao garoto e age completamente fora do protocolo jurídico.

É nesse cenário delicado que se conhece um pouco mais da personagem principal, que além de lutar para tomar a decisão correta com relação a Adam Henry, luta também para entender a situação atual de seu casamento: falta de desejo sexual pelo marido, fim da sua relação com ele, maternidade reprimida por ela…

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O autor também nos coloca a par de outros casos de família, em que Fiona Maye foi juíza. Entre eles, gostei muito do caso de uma família judia, na qual os pais disputavam entre si o direito de escolher qual escola as filhas deveriam frequentar. O pai, acreditava que as filhas deveriam frequentar escola para meninas para que a pureza delas fosse preservada. A mãe, acreditava que era importante que as filhas frequentassem escolas mistas, para que pudessem amadurecer melhor.

O pai das crianças se valeu de alegações machistas (apesar de ter se beneficiado do serviço de uma assistente social, duas advogadas e depender da decisão de uma juíza) para defender seu ponto de vista. Fiona Maye deu-lhe um leve puxão de orelha, fazendo-o se perguntar por que negar às filhas o direito de ter uma profissão.

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A balada de Adam Henry é um livro forte, sensível e direto. Ele é tudo isso ao mesmo tempo. Quando li a conclusão que Fiona Maye redigiu para o caso de Adam Henry, comemorei muito! Mas não comemorei apenas pela conclusão, comemorei, pois as palavras das quais o autor lança mão para narrar o desfecho são sensacionais! Mexeram com meu coração, com minha mente!!!

Mesmo abordando temas como alienação parental, adoção, casamento, religião x medicina, divórcio, desejo sexual e machismo, a escrita de McEwan fez com que eu avançasse todas as páginas com avidez e reflexão. Despertou em mim, maior sensibilidade para algumas questões sobre as quais eu “apenas lia os títulos das matérias”, pois, em minha opinião, eram complexas e estressantes demais.

Nos últimos anos, Ian McEwan tem defendido a racionalidade e lutado contra o fundamentalismo religioso. Desde o Onze de Setembro, quando se fala contra o obscurantismo, o autor é referência mundial nessa área. Ele me fez pensar que ainda tenho muito o que andar para chegar no ponto em que eu tenha paz emocional e racional. É difícil, mas vale a pena com certeza, analisar toda a complexidade dos assuntos que nos rodeiam no dia-a-dia e que podem se tornar nossos assuntos complexos e polêmicos.

Para terminar, uma reflexão de Fiona Maye sobre ser ou não virtuoso, durante a conclusão de uma sentença de gêmeos siameses:

[…] Pura sorte, chegar ao mundo com seu corpo devidamente formado e com tudo nos lugares certos, ter pais amorosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é muito mais fácil ser virtuoso. […]

Capa do livro A balada de Adam Henry, de Ian McEwan.Ficha Técnica:

Título: A balada de Adam Henry
Título original: The Children Act
Autor: Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Lançamento: 2014
Gênero: Ficção inglesa

Nº de Páginas: 200
Formato: 14 x 21 cm
Acabamento: Brochura
ISBN: 9788535925135
Valor: r$ 39,90
Nota: 😺 😺 😺 😺

Colaboração: Ludymilla Duarte Borges

  • Brunella Brunello

    Esse trecho “Mas não comemorei apenas pela conclusão, comemorei, pois as palavras das quais o autor lança mão para narrar o desfecho são sensacionais!” descreve exatamente como me senti ao final de Enclausurado, livro mais recente do autor.