O jornalista e poeta português João Apolinário chegou ao Brasil em meados de 1963, exilando-se por oposição cultural ao regime que seu país vivia. Foi correspondente de guerra e acompanhou de perto a devastação vivida pela Europa na Segunda Guerra Mundial. Durante o exílio de doze anos no Brasil, Apolinário acompanhou de perto toda a luta do teatro brasileiro, que nessa época era reprimido pela ditadura que tomava conta do país. Ele dedicou-se a analisar todo o significado cultural que essa arte representou para o Brasil.

O livro A Crítica de João Apolinário é dividido em dois volumes e reúne em torno de 500 críticas, 1.200 fotografias e 250 programas de espetáculo. As críticas reunidas no livros são todas do período em que Apolinário trabalhava como crítico teatral no Jornal A Última Hora, em São Paulo. Para evitar possíveis restrições do jornal e trabalhar com mais tranquilidade, grande parte do que Apolinário escreveu foi sem nenhuma remuneração.
Os dois volumes do livro “A Crítica de João Apolinário – memória do teatro paulista de 1964 a 1971” foram lançados em 15 de maio de 2013, com direito a festa de lançamento no Teatro Tuca, palco de muitas lutas da história brasileira do teatro. O livro, que é resultado de uma parceria com Petrobras Cultural, agrega 332 críticas e 329 imagens acerca de toda criatividade cultural da época e também sobre as contradições pelas quais o teatro brasileiro, em especial o paulista, passava. O período abordado no livro retrata exatamente a época vivida pelo país durante a Ditadura Militar, onde peças eram censuradas e artistas rigidamente perseguidos pela repressão.
As críticas de João quase sempre eram enviesadas por um tom de censura ao capitalismo, e seus textos são fortemente marcados pela forma corajosa em que enfrentava a cruel ditadura, que costumava punir todos os que iam contra suas imposições. No primeiro volume do livro é possível se deleitar com críticas ricas em detalhes sobre grandes espetáculos teatrais brasileiros, como ‘Opinião’, ‘Morte e Vida Severina’, ‘Toda Nudez Será Castigada’, ‘Liberdade, Liberdade’, entre outras.

Considerado um acervo riquíssimo da cobertura teatral no Brasil, “A Crítica de João Apolinário – memória do teatro paulista de 1964 a 1971” já teve seu destino acertado: foi doado ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) e também para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O maior objetivo é que todos os interessados por arte e cultura teatral brasileira tenham livre acesso para conhecer melhor esse período da história.
O compromisso de João Apolinário com a produção de críticas teatrais foi sua maneira de resistir a censura. De dar voz a artistas de todas as áreas culturais, a fim de que todos pudessem ser ouvidos. No livro uma de suas frases ecoa esse significado entre as páginas: “Em arte, o compromisso, o engajamento das ideias e das emoções criadoras, têm um processo: não o culto de uma personalidade ou de um sistema, mas a solução do homem no que nele há de cósmico e universal, isto é eterno.”
A organização do acervo e da obra de João Apolinário ficou por conta da historiadora Maria Luiza Teixeira Vasconcelos. Pesquisadora e professora de História, Maria Luiza foi esposa de João Apolinário e fez um belo trabalho ao reunir toda a grande obra de Apolinário nesses dois volumes.

Para quem ama teatro e também para quem deseja se aprofundar mais nesse aspecto da história cultural do Brasil, A Crítica de João Apolinário é uma boa pedida. Além de ter uma excelente conjunção de texto e imagens, é de leitura fácil e envolvente. Uma excelente dica para o próximo livro de cabeceira.
















