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ENTREVISTA com Mário Lúcio de Freitas (Parte 2)

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Na 1ª parte da entrevista com Mário Lúcio de Freitas, ele conta como tudo começou, ainda no circo de seu pai. Conta como a vida o levou para televisão, como virou músico de conjunto e também publicitário. Ta pensando que acabou?

Mário Lúcio de Freitas atualmente.
Esse é o grande Mário Lúcio de Freitas, atualmente.

No ano em que completa 60 anos de carreira, Mário Lúcio de Freitas nos conta toda sua trajetória até os dias atuais. Com o surgimento do estúdio Gota Mágica, muitos trabalhos de sucesso foram produzidos por ele e sua equipe. Vinhetas/músicas de aberturas, dublagens e produção de discos ficaram marcados para sempre em desenhos como: Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Sailor Moon, Samurai Warriors, Detonator Orgun (US Mangá), Iczer 3 e Super Campeões. Mário também produziu e arranjou as músicas do LP Turma da Mônica (nos anos 1980), compôs a canção “Meu Cavalo Frankstein” (lançada no 1º LP da Xuxa), e fez versões das músicas dos desenhos Bananas de Pijamas e Guerreiras Mágicas de Rayeart. Agora, vamos acompanhar a 2ª parte da entrevista que fizemos com o Super Mário Lúcio. Vem com a gente!

Ativar Sentidos – Dentre todos os seus projetos, como foi a experiência de fundar o estúdio Gota Mágica? E como você determina a importância dele para a dublagem nacional, principalmente em relação as séries de animes japoneses?
Mário Lúcio de Freitas
– Meu primeiro estúdio foi a Marshmallow, em sociedade com Antônio Paladino e Gilberto Santamaria, mas meu trabalho sempre foi muito pessoal e partir para um empreendimento sozinho seria mesmo o caminho. Fundei, então, em 1993, a Gota Mágica, um estúdio de disco, publicidade e dublagem. Foi o primeiro estúdio multifuncional do país. Um de seus diferenciais foi a exposição dos dubladores à mídia e aos fãs, que até então eram escondidos. Isso modificou a categoria, que hoje é mais reconhecida merecidamente. Uma dublagem pode alterar para melhor (como a de Chaves) ou para pior uma série. Há muitos trabalhos que acabam não fazendo sucesso pela dublagem equivocada. Isso tudo, graças a esses profissionais de uma área tão importante, que o mercado escondia. O nome Gota Mágica veio de um LP que gravei no início dos anos 1980, que tinha uma canção com este nome, composta por mim ainda nos anos 1970.

Mário Lúcio de Freitas - Gota Mágica
Serginho, Pelé e Mário no estúdio Marshmallow, o brinquedo Dragão da Estrela e a capa do LP Gota Mágica.
Capa do LP Nossos Amigos os Animais - Mário Lúcio de Freitas
Capa do LP Nossos Amigos os Animais, que ganhou dois Prêmios Sharp.
Mário Lúcio de Freitas - CD chileno dos Cavaleiros do Zodíaco
Encarte do CD chileno dos Cavaleiros do Zodíaco, com versões em espanhol das músicas feitas no Brasil.

AS – A filosofia de fazer bem feito era marca reconhecida da Gota Mágica. A que você atribui o enorme sucesso deste estúdio que deixou saudades em muitos fãs de séries como: Os Cavaleiros do Zodíaco, Fly – O Pequeno Guerreiro, Dragon Ball, Sailor Moon, Chaves, entre outros?
Mário Lúcio
– Exatamente por ter essa filosofia, além da sorte de ter sido escolhido para fazer esses grandes trabalhos. Todos marcaram muito e são lembrados até hoje como referência de qualidade e criatividade. A série Chaves foi feita antes disso, mas muitos fãs misturam (de propósito) meus trabalhos antes de eu ter estúdio com sendo da Gota, pois é quase a mesma coisa, a filosofia era a mesma. Chaves foi gravado nos estúdios da própria TVS, na Vila Guilherme e no Clube do Chaves, que também fizemos, o estúdio da Gota já não existia. A série foi gravada pela Gota Mágica, sim, mas locando um estúdio da Echo’s. Mas muitas produções nossas em disco fizeram sucesso antes mesmo desta fase. Ganhamos, inclusive, dois Prêmios Sharp como melhor disco e melhor canção com o LP Nossos Amigos os Animais, que produzimos para o SBT Discos. Alguns discos saíram até no exterior, como o de Cavaleiros.

AS – O sucesso da Gota Mágica veio logo no início de suas atividades, com a 1ª dublagem brasileira do anime “Os Cavaleiros do Zodíaco”. A partir daí, muitos dubladores brasileiros passaram a ser reconhecidos e admirados pelos fãs. Com todo esse sucesso, por que o estúdio durou tão pouco tempo no mercado? E o que mudou para o profissional de dublagem após essa época?
Mário Lúcio
– Não foi por falta de trabalho e nem de aceitação que o estúdio fechou suas portas. Ele era uma empresa familiar, onde vários de seus integrantes trabalhavam, e eles abandonaram o barco, deixando-me sozinho. Eu não poderia gravar voz de mulher, de criança, etc. Ficou impraticável. Mas, contudo, foi uma marca para a dublagem brasileira, tanto falada como cantada. Eu diria que a carreira de dublador é uma antes e outra depois da fase da Gota Mágica. Muitos deles vêm vivendo, à partir daí, fazendo palestras pelo Brasil e antes eram anônimos. Passaram até a ser capas de publicações, tipo a Revista Herói, na época. Foi uma mudança radical, que partiu da fase da Gota.

CURIOSIDADE: Nos idos de 1994, desembarca no Brasil o anime dos Cavaleiros do Zodíaco. Um estrondoso sucesso de público que teve sua 1ª dublagem feita pelo estúdio Gota Mágica. O sucesso da série foi tanto, que no ano seguinte, a Sony Music resolveu lançar um CD contendo 12 faixas musicais inspiradas na série e seus personagens. Mário Lúcio de Freitas produziu o disco (que vendeu mais 700 mil cópias) e compôs as canções: “Shina”, “Marin”, “Rap do Zodíaco”, “Força Astral” e “Mestre do Mal”, que foi interpretada por ele próprio. Abaixo, relembre a clássica música de abertura exibida pela extinta TV Manchete.

CURIOSIDADE: A 1ª dublagem brasileira de Dragon Ball foi feita pela Gota Mágica (apenas os 60 primeiros capítulos), sob supervisão de Gilberto Baroli. E a inesquecível música de abertura foi produzida e composta por Mário Lúcio. No Brasil, a série estreou em 1996, sendo exibida pelo SBT.

AS – Você notabilizou-se como arranjador e produtor musical de discos, séries, desenhos e também no mercado publicitário. Como você enxerga o cenário de produção musical hoje?
Mário Lúcio
– Hoje, a criação musical foi setorizada. Até aos anos 1990, mais fortemente nos anos 1960, todo mundo queria ser diferente do outro. Cada banda era de um jeito, cada compositor queria criar algo diferente, todo mundo queria surpreender. Já hoje em dia me parece que todos querem tirar proveito do sucesso do outro. Basta ver quanta dupla sertaneja, quando grupo de pagode e de axé que tem no mercado. Quer se usar o mesmo clichê, para facilitar, pegando uma carona na ideia. Um compositor que me chama a atenção hoje em dia é Seu Jorge, que busca caminhos alternativos bem interessantes.

AS – O seriado Chaves também marcou a infância de milhares de brasileiros. Como foi a experiência de criar o tema de abertura do programa? E como era sua relação de parceria com Marcelo Gastáldi (dublador dos personagens Chaves e Chapolin)?
Mário Lúcio
– A canção “Aí vem o Chaves” (assista o tema de abertura), minha e de Antônio Palladino, foi criada para ser uma faixa do LP Chaves, que produzi para a gravadora PolyGram, em parceria com o SBT Discos, em 1989. Só posteriormente é que ela foi escolhida para ser a vinheta de abertura da série, utilizada até hoje. Mas na série também tem muitos trabalhos meus, pois fiz sua produção musical. Como o som da série teve que ser refeito por inteiro (na época não existia a banda internacional nos produtos em videotape), mantendo-se somente a imagem, muitos incidentais que tocam na série também foram feitos por mim, além dos violões que os personagens tocam e dos play backs e direção musical das músicas cantadas durante os capítulos.

Quanto a Marcelo Gastáldi (e suas dublagens), ele era meu amigo de infância. Trabalhamos juntos como atores na TV Paulista, tivemos uma banda (Os Iguais), compusemos em parceria muitas canções: A Partida, maior sucesso de Os Iguais; Punky – A levada da Breca; os temas de abertura e encerramento da novela Chispita; as aberturas das novelas Viviana em Busca do Amor, Estranho Poder e Jerônimo. Esses são apenas alguns trabalhos que fizemos juntos. As nossas famílias conviviam muito. Éramos compadres. Para o disco Chaves, também compusemos em parceria os temas dos personagens Kiko e Seu Madruga. Numa palestra, da qual participei, encontrei dois atores que integraram a série: Carlos Villagrán e Edgar Vivar, que interpretaram respectivamente o Kiko e o Seu Barriga, além de vários dubladores da série, como Nélson Machado (Kiko), Cecília Lemes (Chiquinha), cujo tema sou eu que canto no LP Chaves, e Carlos Seidl (Seu Madruga). Foi um momento muito legal de confraternização. A plateia cantou todas as músicas do LP Chaves comigo, durante a apresentação. O que não faltaram foram câmeras registrando o evento, que foi para a internet quase que simultaneamente.

Nélson Machado, Carlos Villagrán e Mário Lúcio de Freitas
Nélson Machado (dublador do Kiko), Carlos Villagrán (intérprete do Kiko) e Mário Lúcio de Freitas.
Capa do LP Chaves - Mário Lúcio de Freitas
Capa do LP Chaves, ao qual Mário Lúcio produziu e compôs algumas músicas.

AS – Você compôs diversas músicas que fizeram parte das aberturas e trilhas de desenhos animados. Eram músicas com corpo e alma própria, bem gravadas, cantadas e produzidas – adicionando a isso, vozes infantis que marcaram uma infância realmente saudável. Por que, atualmente, não vemos mais essa delicadeza nas músicas de séries e desenhos infantis?
Mário Lúcio
– O que está ocorrendo é que passou-se apenas a verter as aberturas internacionais, pois produzir músicas inéditas brasileiras tem um custo, que as gravadoras no Brasil, por estarem passando por extrema dificuldade, não podem arcar. Nem sempre as canções originais da série são boas. Muitas vezes, foram feitas em estilos e gêneros muito diferentes dos nossos, pois muitas delas são séries oriundas de países que não possuem muita tradição musical, ou são apenas músicas folclóricas desses lugares. Mas, atualmente, muitos trabalhos estão sendo feitos de maneira profissional. As séries infantis, que possui canções cantadas, que estão sendo exibidas pelo canal Discovery Kids estão muito bem dubladas. Thomas e seus Amigos, Super Why, Angelina Ballerina, Esquadrão dos Monstros, entre elas, são muito boas. Quem vem dirigindo e adaptando as letras de muitas dublagens musicais atualmente é Rodrigo Firmo, que foi o solista vocal da abertura de uma série de grande sucesso que foi citada acima: Fly – O Pequeno Guerreiro, que compusemos e produzimos nos anos 1990. A equipe infantil que era da Gota Mágica participa desses trabalhos (Rodrigo, Felipe, Gaby, Karina e Sarah). Parece que delineamos um caminho a ser seguido, não é mesmo? O que falta é poder criar músicas brasileiras para encaixar nas aberturas, o que dá um toque diferenciado à série, o que não vem sendo feito pelas distribuidoras. É uma pena. Quem sabe o espírito da Gota Mágica volte um dia, né? (risos)

Atualmente, venho criando, em parceria com Hellen Palácio, na área de audiolivros. Fizemos a coleção Contando e Cantando Cantigas de Roda; o livro Luquinha, o menino que não sabia sorrir; a audionovela de Zíbia Gasparetto, Se Abrindo pra Vida; além dos DVDs do Animanias Zoológico do Avesso e Circo e A Sementinha do Bem, entre muitos. Todos com a filosofia de fazer diferente e bem feito, que nos acompanha desde o início, no Circo Marabá, de meu pai.

Finalizamos nossa entrevista com a famosa frase de abertura que nunca saiu da cabeça dos jovens que viveram aquela época verdadeiramente mágica. E aquela voz forte, empostada com maestria pelo grande Jonas Mello: Versão Brasileira – Gota Mágica, São Paulo. Quem não se lembra?

* Todas as fotos utilizadas pertencem ao arquivo pessoal de Mário Lúcio de Freitas, ao qual agradecemos por ter concedido essa entrevista. Realização: Edvando Junior e Gabriela Silva.