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CAMARÕES | As Máscaras Africanas

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Toda vez que viajo me sinto diferente. Ao acordar em outro país tenho mania de passar a mão no rosto – nariz e boca, olhos e bochechas, testa e cabelos – para saber se a minha face está livre, e limpa, e pura. Como um ritual onde certifico-me de que eu sou eu mesma e vasculho pensamentos atrás de sensações do que já vivi. Respiro fundo e sinto o ar do novo lugar. Como alguém que procura alguma coisa ou um motivo pelo qual valha a pena levantar e começar o dia. É nesse ínterim que encontro um certo fascínio pelas possibilidades de representação do rosto humano – a simetria é uma constante.

Máscara da etnia Bamoun, originária de Camarões.
Máscara da etnia Bamoun, originária de Camarões. Foto: Reprodução

Estou em Camarões – África em miniatura, ponto de cruzamento dos povos e civilizações. País que apresenta uma extraordinária multiplicidade de etnias, representado através do folclore e do artesanato de cada uma delas, com suas tradições, a sua arte de viver, a sua cultura. Máscaras, estatuetas, instrumentos musicais, tudo concorre para perpetuar os ritos e tradições imemoriais de Camarões. Encantada com a arte da tradição africana na sua aparentemente infinita criatividade, percorri durante horas o vasto mundo das máscaras de diferentes etnias de Camarões, pertencentes à coleção do museu etnológico de Berlim.

A arte africana representa os usos e costumes das tribos africanas, e expressa muita sensibilidade. As máscaras representam a figura humana e sua preocupação com os valores étnicos, morais e religiosos. Uma forma de arte muito utilizada pelos artistas africanos usando-se o ouro, bronze e marfim como matéria prima. Representando um disfarce para a incorporação dos espíritos e a possibilidade de adquirir forças mágicas, as máscaras têm um significado místico e importante na cultura africana, sendo usadas nos rituais e funerais. Para estabelecer a purificação e a ligação com a entidade sagrada, são modeladas em segredo na selva.

Visitando o museu contemplei esculturas de enorme impacto visual que na representação do rosto impõem um jogo de volumes entre as diferentes componentes: nariz e boca, olhos e bochechas, testa e cabelos. Passei a mão novamente sob a minha face, no mesmo ritual que se repetiu ao acordar. Há cores no olhar, mesmo que a peça escultórica esteja em preto e branco, ou madeira, ou bronze, ou marfim.

Máscara da etnia Bamileke (de Camarões - África), pertencente à coleção do museu etnológico de Berlim.
Máscara da etnia Bamileke, pertencente à coleção do museu etnológico de Berlim.
Máscara da etnia Kom (de Camarões - África), pertencente à coleção do museu etnológico de Berlim.
Máscara da etnia Kom, pertencente à coleção do museu etnológico de Berlim.
Máscaras africanas, principalmente de Camarões - África.
Máscaras africanas, principalmente de Camarões. Foto: Reprodução

É mais triste um rosto que se esconde por detrás de uma máscara mesmo que sorrindo, com toda a linha que acompanha o contorno de um rosto aparentemente suave. É que para alguns apenas o resultado plástico é o que atrai. Mas o teu rosto não é de madeira, nem de bronze, nem de marfim, nem preto e branco. Deveria ter cor, bochechas e boca rosadas, olhos e cabelos brilhantes. Mais cor, mais brilho, mais vida, por favor! Não é o contorno dos teus músculos, nem a linha reta que teu nariz faz ao encontrar a coloração dos teus olhos. O que me fascina é a dureza dos teus braços fortes ao me carregar, o desenho que sua testa faz quando não entende o que eu digo, mas ao olhar em meus olhos já entende tudo.

No dia em que conseguir libertar a sua face, o que está aprisionado sob máscaras irá aflorar em teu semblante, talvez se abra uma imensidão onde possa revelar o que está por vir. Não poupe-se de sentir. Lave o rosto e deixe a água escorrer o suor do dia-a-dia.

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